Medo? De quê?

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Resumo: O medo enquanto uma emoção presente na vida de todo indivíduo, foi responsável pela preservação da espécie e nos protege diante de situações que nos oferecem perigo nos alertando e nos preparando para agir em defesa própria, sendo considerado normal somente em situações adequadas. Porém, por vezes ele toma dimensões que fogem ao controle do indivíduo e ao invés de servir para alertar contra ameaças reais ele se torna um inimigo que causa graves transtornos, limitações, comprometendo as relações sociais, afetivas e profissionais da vida do mesmo. O objetivo deste artigo é buscar uma melhor compreensão sobre o que é o medo, quais suas funções na nossa vida, suas consequências quando em excesso e quais são os tratamentos mais indicados. Para a elaboração do artigo foram utilizados artigos da internet e livros sobre o tema. A relação entre as referências encontradas demonstraram a necessidade de se compreender melhor esse fenômeno que só é prejudicial quando passa a limitar o ser humano, que os tratamentos existentes são eficazes, mas que é essencial o reconhecimento do problema, querer enfrentá-lo e então buscar a ajuda adequada para cada caso.

Palavras-chave: Medo, Ansiedade, Fobia, Tratamento.

  1. Introdução

São várias as expressões utilizadas para descrever um estado emocional desagradável de apreensão ou tensão, e que pode vir acompanhado de sintomas fisiológicos como, por exemplo, sudorese, palpitações, tremores entre outros. Medo e ansiedade são as expressões que se ouvem com mais frequência e apesar de serem considerados sinônimos, o que as difere é a existência ou não de estímulos externos desencadeadores desses estados emocionais e o comportamento de evitação ou fuga que o indivíduo tem (BAPTISTA, CARVALHO, LORY, 2005).

Inevitavelmente, o medo é ou será vivenciado por todos os seres humanos em algum momento de suas vidas, inclusive os animais, como demonstrou estudo feito no laboratório da pesquisadora Angela C. Roberts, na Universidade de Cambridge com saguis. Por terem o cérebro muito semelhante ao dos humanos esses animais são excelentes amostras para os estudos. De acordo com Pavón (2013) para compreender profundamente as respostas emocionais dos primatas, são analisados seu comportamento e suas reações automáticas com ajuda de um sistema de telemetria. Esta ferramenta permite o acompanhamento do ritmo cardíaco e da pressão sanguínea em tempo real enquanto os saguis enfrentam diversos tipos de estímulos. Estudos desse tipo são essenciais para se compreender como o cérebro humano reage diante de uma ameaça e quais tratamentos são mais eficazes no que se refere à ansiedade e o medo. O medo é uma emoção que se desenvolveu juntamente com a evolução natural que a espécie humana sofreu, e foi esse fenômeno psicológico que ajudou o homem a sobreviver, isso quer dizer que o medo é necessário, pois ele nos alerta sobre perigos que põe em risco nossa segurança.

Em decorrência disso, é relevante pesquisar mais sobre o tema, visto que todo indivíduo tem algum tipo de medo em maior ou menor grau independente de cultura, classe social, raça ou religião. Também buscar uma melhor compreensão sobre o que é o Medo, as limitações que ele causa na vida dos indivíduos quando é excessivo e o que pode ser feito para ajudar quem sofre com esse medo desproporcional, com informações e possibilidades de tratamentos. E diante da dificuldade de se encontrar material sobre o tema, percebeu-se uma relevância ainda maior em se buscar mais informações sobre um fenômeno tão presente em nossas vidas e que não está tendo a atenção que deveria.

  1. Método

Trata-se de artigo de revisão de literatura sobre o tema Medo através de pesquisa na internet e livros nos anos de 1998 a 2013. Foram utilizadas as seguintes palavras-chaves: medo, ansiedade, fobia, tratamento. Foram selecionados apenas artigos e livros que tinham interesse para o objetivo escolhido, ou seja, o papel do Medo na vida das pessoas, identificando as possíveis causas e os tratamentos mais adequados para amenizar o sofrimento dos indivíduos que sofrem com o excesso de medo em suas vidas.

  1. Desenvolvimento

3.1 Medo

Após análise das referências bibliográficas, percebe-se uma unanimidade entre os autores Bauman (2008), Mira Y Lopéz (1998), Wesiack (1999) e Barros Neto (2000), quando o assunto é a presença do medo na vida das pessoas. O medo é um sentimento que toda criatura viva em algum momento da vida experienciou. Tanto humanos quanto animais de uma forma ou outra tem contato com esse fenômeno psicológico denominado “medo”. Afinal porque sentimos medo, ele é inato ou aprendido, e realmente precisamos dele para nos manter a salvo de situações que atentam contra nossa vida? A resposta é sim, todo ser humano nasce com dois medos, do barulho e de cair, os outros vão sendo adquiridos no decorrer da vida, ao longo do desenvolvimento humano e conforme vão surgindo situações consideradas ameaçadoras. O problema está em quando ele foge ao nosso controle e nos tornamos seus prisioneiros, evitando situações que não nos oferecem perigo real, nos trazendo prejuízos e interferindo na vida social (MIRA Y LOPÉZ, 1998).

[…] o organismo humano, mal começa, em seu desenvolvimento intra-uterino, a dar sinais de uma conduta integral ou individualizada, […] que correspondem ao aspecto medroso, quer dizer , inibitório (MIRA Y LOPÉZ, 1998, p. 11).

Para Mira Y Lopéz (1998), a partir do segundo ano de vida, a criança já possui um esboço de vida. Isto significa que suas lembranças podem, a qualquer momento, transformarem-se em imagens e voltar a apresentar-se ante ela […] favorecendo a reativação de quantas tendências se associaram com a original ocorrência que as determinou (MIRA Y LOPÉZ, 1998, p. 17).

Conforme Mira Y Lopéz, […] o Medo se apresenta sempre do mesmo modo no plano consciente: ocasionando uma retração e diminuição do sentimento de segurança e da zona de livre determinação do Eu, com tendência ao aparecimento de uma vivência de insuficiência, auto anulação e impotência, que torna o indivíduo desamparado ante a situação, despertando nele um incoercível desejo de desvanecer-se, desaparecer […] um passo já é dado nessa direção, desde o momento em que deixa de atuar e se submerge em uma expectativa inerte e angustiante (MIRA Y LÓPEZ, 1998, p. 66).

O psiquiatra Isaac Marks, renomado pesquisador da Universidade de Londres explica que é praticamente impossível viver sem medo, basta observarmos situações do nosso dia a dia, como quando olhamos dos dois lados de uma rua antes de atravessá-la por medo de sermos atropelados.  Devemos então segundo ele, perceber o medo como algo benéfico, indispensável e que nos protege dos perigos que nos cercam (BARROS NETO, 2000).

O medo é um fenômeno global que só é prejudicial quando excessivo do contrário ele é necessário, se não existisse os sinais de alerta do medo os seres vivos superiores já teriam se extinguido (WESIACK, 1999).

O medo é um legado evolutivo vital que leva um organismo a evitar ameaças, tendo um valor óbvio na sobrevivência. É uma emoção produzida pela percepção de um perigo presente ou eminente […] Sem nenhum medo, poucos poderiam sobreviver por longo tempo em condições naturais […] Deve haver uma quantidade ideal de medo para haver um bom desempenho (BARROS NETO, 2000, p. 12).

Os perigos que o ser humano teme são basicamente três tipos; o que ameaça sua integridade física, o seu sustento (emprego, renda, como sobreviveria em caso de invalidez ou velhice) e o da exclusão social, que pode ameaçar o seu lugar no mundo, sua identidade. Quando estamos diante do inevitável, em que temos que tomar alguma decisão, classifica-se como risco por sabermos que os resultados de nossa ação poderá ser tanto positiva quanto negativa, essa dúvida, incerteza diante do desconhecido é que desencadeará o tão temido medo, porque por mais calculada que seja nossa ação ela pode nos surpreender (BAUMAN, 2008).

A incerteza diante de uma situação e a forma pela qual ela é interpretada pelo indivíduo é que desencadeia o medo, portanto, assumir o medo, encará-lo de frente é uma das formas mais bem sucedidas senão a única de domínio sobre ele (WESIACK, 1999).

De acordo com Bauman (2008, p. 169):

É nossa “obsessão com segurança”, assim como nossa intolerância a qualquer brecha ainda que mínima no seu fornecimento, que se torna a fonte mais prolífica, auto-renovável e provavelmente inexaurível de nossa ansiedade e de nosso medo.

Quando direcionamos nossa atenção para os problemas que podemos resolver e deixamos de lado os que não podemos, mantemos nossa saúde mental, mas isso não quer dizer que estamos mais seguros (BAUMAN, 2008)

Para Wesiack (1999), primeiramente precisamos saber o que é o medo e quais suas funções em nossa vida, e só então conseguiremos lidar com ele, superá-lo. Para ele o medo é uma das sensações básicas da vida tanto quanto o prazer, a alegria, a tristeza, a fome, a sede etc. Classificando-as entre o que seria agradável e desagradável, o medo se encaixaria nesta última opção.

Todos nós conhecemos a sensação do medo, mas ele não é somente um fenômeno psíquico, tem também reações físicas que ocorrem nesse processo. Ao sentir-se ameaçado nosso organismo reage, preparando-o para a luta ou para a fuga, na intenção de preservar sua integridade. Essas reações são perceptíveis; aceleração do coração, a pressão arterial se eleva, ocorre tremores, transpiração entre outras (WESIACK, 1999).

Para Wesiack (1999) a expressão de que o medo existe é falsa, para ele da mesma forma que nenhum homem é igual ao outro, o medo também não é, cada indivíduo possui medos que são só seus, particulares, o medo nos prepara para a luta ou para fuga e cabe somente a nós a decisão de lutar ou fugir.

Os medos aparecem quando são úteis, como na ansiedade de separação, o medo de altura ou a ansiedade social, mas tendem a desaparecer assim que esses fatos são dominados e deixam de oferecer perigo. O medo e a ansiedade são influenciados por fatores ambientais que tanto os pode fazer aumentar como diminuir (BAPTISTA, CARVALHO, LORY, 2005).

Ao se referir ao medo, Bauman (2008, p. 173) afirma que “O medo nos estimula a assumir uma ação defensiva, e isso confere proximidade, tangibilidade e credibilidade às ameaças, genuínas ou supostas, de que ele presumivelmente emana.”

O medo pode desencadear no indivíduo uma reação de raiva e ele ter atitudes agressivas ou sentir pavor e optar então pela fuga. Quando o medo torna-se excessivo surgindo em situações que a maioria das pessoas não o manifestaria, demonstrando-se irracional ou exagerado, passa a ser um medo anormal, podendo se transformar em um transtorno de ansiedade que, mesmo sendo semelhante ao medo esta surge sem que haja um perigo real (BARROS NETO, 2000, p. 13).

3.2 Ansiedade

A ansiedade é um estado emocional difícil de conceituar, pois ela é experimentada por cada indivíduo de maneira particular. É útil esclarecer que a ansiedade é uma emoção semelhante ao medo, mas que surge sem que haja uma fonte de perigo real (BARROS NETO, 2000).

Ansiedade é o nome que damos para a emoção que se segue a percepção de que estamos sob a ameaça de alguma punição. Portanto, é a emoção que antecede a perda. Se tal perda já ocorreu, se já perdemos algo (ou alguém), o que sentimos chama-se “tristeza”, sentimento que está ligado à frustração Graeff, Guimarães e Deakin, (1993 apud MESTRE e CORASSA 2000).

A ansiedade quase sempre é vivenciada como uma sensação de apreensão quanto a algum perigo futuro não bem delineado é uma experiência universal, que tem, como função, a sobrevivência, e que pode se manifestar de quatro maneiras: pela fuga, pela imobilidade, pela agressão (defesa agressiva) e pela submissão Bernick (1989 apud MESTRE e CORASSA, 2000).

Para Mestre e Corassa (2000) a ansiedade quando excessiva nos torna discordantes, tensos, confusos e faz com que  percebamos nossa existência como sem finalidade. Ela pode variar de um grau mais leve até um mais intenso.  Há sinais que indicam se estamos estressados. Porém, se um indivíduo já provou sensações associadas a tais emoções, os sintomas da ansiedade podem se generalizar de tal forma que vem a ser extremamente desagradáveis e criadores de falta de adaptação; isso pode explicar porque há pessoas que se auto-mediquem para aliviar essas emoções que lhes fazem perder o controle da própria existência.

Segundo Mestre e Corassa (2000) “A ansiedade é um sentimento que nos ajuda advertindo-nos de que podemos fugir de punição ou nos esquivar de uma frustração futura. […], ela possui valor de adaptação para o ser humano.”

A Ansiedade no DSM. IV (“Manual Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais”, 1994)é subdividida em:

Agorafobia – é a ansiedade ou esquiva a locais ou situações das quais poderia ser difícil (ou embaraçoso) escapar ou nas quais o auxílio poderia não estar disponível, no caso de ter um Ataque de Pânico ou sintomas tipo pânico.

Ataque de Pânico – é representado por um período distinto no qual há o início súbito de intensa apreensão, temor ou terror, frequentemente associados com sentimentos de catástrofe iminente. Durante esses ataques, estão presentes sintomas tais como falta de ar, palpitações, dor ou desconforto torácico, sensação de sufocamento e medo de “ficar louco” ou de perder o controle.

Transtorno de Pânico Sem Agorafobia – é caracterizado por Ataques de Pânico inesperados e recorrentes acerca dos quais o indivíduo se sente persistentemente preocupado.

Transtorno de Pânico Com Agorafobia – caracteriza-se por Ataques de Pânico recorrentes e inesperados e Agorafobia.

Agorafobia Sem História de Transtorno de Pânico – caracteriza-se pela presença de Agorafobia e sintomas tipo pânico sem uma história de Ataques de Pânico inesperados.

Fobia Específica – caracteriza-se por ansiedade clinicamente significativa provocada pela exposição a um objeto ou situação específica e temidos, frequentemente levando ao comportamento de esquiva.

Fobia Social – caracteriza-se por ansiedade clinicamente significativa provocada pela exposição a certos tipos de situações sociais ou de desempenho, frequentemente levando ao comportamento de esquiva.

Transtorno Obsessivo-Compulsivo – caracteriza-se por obsessões (que causam acentuada ansiedade ou sofrimento) e/ou compulsões (que servem para neutralizar a ansiedade).

Transtorno de Estresse Pós-Traumático – caracteriza-se pela revivência de um evento extremamente traumático, acompanhada por sintomas de excitação aumentada e esquiva de estímulos associados com o trauma.

Transtorno de Estresse Agudo – caracteriza-se por sintomas similares àqueles do Transtorno de Estresse Pós-Traumático, ocorrendo logo após um evento extremamente traumático.

Transtorno de Ansiedade Generalizada – caracteriza-se por pelo menos seis meses de ansiedade e preocupação excessivas e persistentes.

Transtorno de Ansiedade Devido a Uma Condição Médica Geral – caracteriza-se por sintomas proeminentes de ansiedade considerados como sendo a consequência fisiológica direta de uma condição médica geral.

Transtorno de Ansiedade Induzido por Substância – caracteriza-se por sintomas proeminentes de ansiedade, considerados como sendo a consequência fisiológica direta de uma droga de abuso, um medicamento ou exposição a uma toxina.

Transtorno de Ansiedade Sem Outra Especificação – é incluído para a codificação de transtornos com ansiedade proeminente ou esquiva fóbica que não satisfazem os critérios para qualquer um dos Transtornos de Ansiedade específicos definidos nesta seção (ou sintomas de ansiedade acerca dos quais existem informações inadequadas ou contraditórias).

Transtorno de Ansiedade de Separação – (caracterizado por ansiedade relacionada à separação de figuras parentais) geralmente se desenvolve na infância.

A ansiedade nos mantém alertas, aumenta a capacidade do indivíduo de agir na presença de estresse, aumenta nossa percepção e memória para estudar e falar com cuidado e é o que nos faz ser prudentes ao dirigir. Mas é o seu excesso que faz com que o indivíduo se sinta tenso, confuso e faz com que essa sensação se torne extremamente desagradável (MESTRE E CORASSA, 2000).

3.3 Quando o Medo Torna-Se Patológico

Ao se referir ao medo, Versiani, Nardi e Mundim (1989, apud MESTRE e CORASSA 2000) afirmam que “O medo tem papel fundamental na adaptação humana, mas alguns tipos de medo são de grande magnitude para as situações desencadeantes e estes são chamados de fobias.”         

Podemos descrever fobia como um medo desproporcional, irracional, diante do qual o indivíduo se sente impotente para reagir, mesmo que reconheça ser sem fundamento essa impotência. Em sua fase inicial onde se apresenta de forma vaga embora persistente podemos denominá-la apreensão, se se apresenta de forma mais compulsiva obrigando o indivíduo a realizar atos digamos “absurdos” para sentir alívio diante de sua angústia chamamos de medo obsessivo. A principal característica das fobias é quem as sofre reconhece a falta de base razoável pra tanto sofrimento, no entanto não consegue dominar-se (MIRA Y LOPÉZ, 1998).

Para Mestre e Corassa (2000), a fobia é vista como uma forma especial de medo e que apresenta as seguintes características: desproporção entre a emoção e a situação que a provoca; medo sem explicação razoável; ausência de controle voluntário; tendência a evitação dessa situação.

A diferença entre a fobia e a ansiedade, segundo Falcone (1995 apud MESTRE e CORASSA 2000), é basicamente quantitativa, isto é, depende de quanto tempo dura o episódio de ansiedade, do quanto de ansiedade a pessoa experimenta, da frequência em que esta ocorre do nível em que o comportamento evitativo disfuncional é precipitado pela ansiedade e de como é a avaliação dada pela pessoa que está ansiosa.

De acordo com Mira Y Lopéz (1998) as fobias possuem algumas características que servem para identificá-las tais como: bruscas ocorrências e sua forma de apresentação em forma de acessos e recidivas, sua independência pelo pensamento lógico e a argumentação razoável, sua tendência natural ao crescimento e a difusão, seu desaparecimento brusco mediante atitudes que o indivíduo tem em autodefesa e as dúvidas e compulsões.

O perfil psicológico de pessoas ansiosas ou fóbicas é que são geralmente, competentes, detalhistas, inteligentes, responsáveis, humanas, mas não gostam de críticas. Sofrem geralmente de ansiedade antecipatória isto é, querem o resultado antes mesmo de fazer (CORASSA, 1996).

O medo deve estar presente em uma intensidade ideal. Nem mais, nem menos. Dessa forma, de acordo com Barros Neto (2000, p. 13) “Quando o medo é excessivo, ou ocorre em situações em que a maior parte das pessoas não o manifestaria, tornando-se dessa forma exagerado ou irracional, passa a ser um medo anormal (patológico).”

Para Mira Y Lopéz, o medo insensato em suas formas intensas e perseverantes, leva ao desequilíbrio mental (medo patológico), ao suicídio ou ao crime, se não é devidamente tratado com os modernos recursos da Psiquiatria (MIRA Y LOPÉZ, 1998, p. 38).

Freud considerava as fobias uma expressão da ansiedade relacionada a fantasias inconscientes e uma defesa contra ela, colocando-se em marcha o mecanismo de evitar para escapar das situações evocadoras de angústia. (SCHOEN e VITALLE, 2012).

O DSM-IV (“Manual Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais”, 1994) caracteriza a fobia em subtipos:

Fobias Específicas (FE): são medos intensos, restritos a situações estimuladoras específicas (animais, fenômenos da natureza, andar de avião ou similares, dentista, hospitais ou similares…).

Fobias Sociais ou Generalizadas (FSG): tratam marcantemente de comportamentos evitativos de situações sociais; elas implicam a aprovação do grupo.

Fobia Social Circunscrita (FSC): acontece quando o indivíduo apresenta temor apenas de uma situação pública de desempenho de interação social (ex.: medo de dirigir, de escrever, de escola, de falar em público…).

Esse medo desproporcional desencadeia uma ansiedade tão grande e pode gerar sensações de medo e pavor, ao ponto de prejudicar o comportamento social de uma pessoa trazendo prejuízos, causando perdas e limitando suas ações ou ainda o que é mais grave desenvolver doenças psicossomáticas (OLIVEIRA, 2012).

3.4 Tratamento

O que torna clara a necessidade de tratamento é quando o indivíduo passa a recusar convites, alterar sua rotina diária e a comprometer alguma área da sua vida. A essa altura provavelmente a pessoa não será capaz de superar tais dificuldades sozinha e necessitará de ajuda terapêutica para superar suas limitações. O medo quando passa a escravizar quem o sente está mostrando o seu lado negativo e esse sentimento não pode ter o domínio sobre a vida de ninguém, pois ele se torna limitador e impede que a pessoa faça coisas, por achar que algo de ruim vai acontecer com ela (BARROS NETO, 2000).

O plano de tratamento terapêutico é elaborado de forma particular a cada cliente pois o grau de intensidade diante desses medos irracionais pode variar de um indivíduo ao outro. (MESTRE E CORASSA, 2000).

Os tratamentos psicológicos que demonstraram ser eficazes na diminuição da ansiedade baseiam-se em dois tipos de procedimentos, empiricamente suportados, que se designam por terapia comportamental e por terapia cognitiva. Baptista (1999 apud BAPTISTA, CARVALHO E LORY 2005).

A terapia comportamental possibilita que pessoas que sofrem com transtornos ansiosos possam se auto-ajudar, muitas vezes através de técnicas simples, que tem por objetivo a redução da ansiedade e dos sintomas físicos e psicológicos associados a ela. Através da terapia comportamental consegue-se diminuir e eliminar hábitos inadequados e desadaptados (BARROS NETO, 2000).

Já a terapia cognitiva tem por objetivo identificar os pensamentos distorcidos, fazer uma averiguação na realidade e corrigi-los, buscando a mudança dessas crenças disfuncionais. (BARROS NETO, 2000).

Para as perturbações de alta ansiedade, os tratamentos farmacológicos e os tratamentos psicológicos mostraram ser particularmente eficazes, sendo conhecidos para cada um deles as suas indicações, vantagens e limitações. Barlow (2002 apud BAPTISTA, CARVALHO e LORY 2005).

Para o tratamento das fobias, não importa qual a técnica utilizada, é de fundamental importância que o indivíduo esteja decidido a eliminar esse comportamento fóbico, mesmo que isso implique um grande esforço por parte do mesmo. É necessário primeiramente que seja feita uma análise funcional adequada e posteriormente adequar esse método ao cliente em questão. (MESTRE e CORASSA 2000).

Segundo Mestre e Corassa (2000) as técnicas mais frequentemente utilizadas são:

Dessensibilização sistemática: a mais conhecida das técnicas comportamentais foi criada por Wolpe em 1948 e é composta, basicamente, por três passos:

  • treino em relaxamento muscular profundo
  • construção de hierarquias de ansiedade
  • contraposição do relaxamento a hierarquia.

Inundação: também conhecida como técnica “implosiva”, é uma técnica baseada em exposição, ao vivo ou imaginária, a situação fóbica.

Modelação: Bandura (1969) é quem propõe tal técnica, que prevê que, por identificação com um modelo positivo, o cliente possa mudar seu comportamento.

Técnicas cognitivas: existem muitas técnicas cognitivas que devem ser adaptadas para cada caso; por exemplo: a “descatastrofização”, que leva o cliente a reconhecer seu padrão de pensamento e, assim, alterar suas crenças.

Treino assertivo: funciona como método de aumentar o repertório social interativo.

É importante salientar que os transtornos ansiosos podem estar sobrepostos entre si e a outros tipos de transtorno mental como, depressão, alcoolismo e abuso ou dependência de drogas […] sendo mais indicado o acompanhamento com um psiquiatra. (BARROS NETO, 2000, P. 16).

  1. Conclusão

É inquestionável a presença do medo em nossas vidas e de sua importância para nos manter a salvo dos perigos que ameaçam nossa segurança. Se por vezes somos prudentes, cautelosos diante de determinadas situações é porque o medo faz com agimos assim para nos proteger, evitando que algo de ruim nos aconteça. Porém é conveniente reconhecermos quando este fenômeno ultrapassa todos os limites do que se considera normal, saudável, e passa a prejudicar, limitar ao invés de proteger.

O medo quando excessivo gera níveis altíssimos de ansiedade e na sua forma mais severa, as fobias, nesse estágio é extremamente necessária a intervenção de um profissional psicólogo ou de um psiquiatra o qual se julgar necessário fará uso de tratamento medicamentoso.

Por vezes o desconhecimento sobre esse tema, vergonha por sentir tanto medo sem um motivo real que o justifique e o preconceito em procurar o auxílio de um profissional psicólogo ou psiquiatra, faz com que o indivíduo tenha sua vida prejudicada por esse fenômeno em suas várias formas e não procure ajuda, mas quando ele passa a ter a consciência do que torna sua vida tão dolorosa, um primeiro passo é dado o que não quer dizer que ele dará o próximo, mas há de se reconhecer a importância do começo.

Um grande engano é acreditar que evitando as situações que causam grande ansiedade irá resolver o problema, pois é inegável que o enfrentamento do medo é um importante aliado no tratamento das fobias. Nesse sentido torna-se evidente a importância desse trabalho no sentido de levar mais informações sobre esse fenômeno tão presente na vida de todos.

Autores: Simone Balbinot Scheila Beatriz Sehnem

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