Adoeci, Por Quê?

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Resumo: O presente estudo abrange o entendimento do fenômeno de adoecimento, enfatizando a influência dos fatores emocionais na gênese de inúmeras doenças psicofisiológicas. Destacando a correlação entre as estruturas orgânicas e o psiquismo do sujeito no aparecimento e curso das enfermidades, com o intuito de melhor entender e tratar o ser humano que apresenta algum transtorno somático. Uma vez que o sintoma que se revela no corpo denota a necessidade de compreender mutuamente psique e soma (corpo), o referido estudo teve por finalidade investigar o processo psicossomático de emoções, estresses e conflitos psíquicos em suas manifestações corpóreas, além de tentar identificar as características, tanto do sujeito como de suas desordens, que são subjacentes às somatizações, perpassando também pelo contexto histórico da psicossomática. A área da psiconeurimunologia que estuda a etiologia das enfermidades corporais a partir do entendimento global da pessoa, também foi apresentada neste estudo. Abordou-se, ainda, a área da fisiologia e sua importante relação com o processo das emoções e os distúrbios somáticos. Para tal realizou-se pesquisa bibliográfica que proporcionou uma extensa visão sobre a área da psicossomática, denotando a relevância dos fatores biopsicossociais para a compreensão integral do paciente e sua doença. Assim, entende-se a atualidade deste tema que instiga o entendimento de todo processo de adoecimento conforme a influência da carga afetivo-emocional, o que se constitui em desenvolvimento proeminente para os estudos da medicina e psicologia da contemporaneidade.

 

  1. Introdução

A relação mente e corpo vem assumindo importância significativa no contexto da medicina no século atual, permitindo uma nova visão do fenômeno da doença, passando os fatores emocionais a serem mais evidentes. A correlação do psiquismo com as estruturas orgânicas vem sendo percebida de forma diferente da visão até então predominante, baseada na dicotomia mente e corpo.

O termo medicina psicossomática começou a ser utilizado nas primeiras décadas do século XX e foi consagrado quando em 1939 foi criada nos Estados Unidos uma sociedade médica com este nome passando então a ser editada uma publicação mensal de divulgação e pesquisas, editando estudos referentes a esse tema (MELLO, 2002).

A medicina psicossomática refere-se ao estudo detalhado da relação entre psiquismo e organismo do sujeito, incluindo reações individuais a certas doenças assim como as implicações pessoais e a sua conduta social, motivadas pela doença. Ocupa-se em valorizar tanto os mecanismos psíquicos como os físicos que intervêm na enfermidade de todo paciente, além de salientar a influência que estes dois fatores exercem mutuamente sobre si e sobre o indivíduo como pessoa (PAIVA, 1994).

Prossegue o autor afirmando que a finalidade da psicossomática é a de pesquisar e esclarecer a inter-relação dos processos psicológicos e os fisiopatológicos visando o melhor entendimento e tratamento do ser humano.

O processo da psicossomática consiste em uma das respostas psíquicas mais comuns utilizadas pelo ser humano, para externar sua dor mental. Logo, o ato de somatizar funciona como uma primitiva forma de comunicação não-verbal que promove a leitura de certos conflitos que não conseguem ser manifestados pelo indivíduo através da palavra (ZIMERMAN, 2005).

O sintoma que se manifesta no corpo refere-se a um sinal que objetiva transmitir informação de que algo não está em conformidade no organismo do indivíduo, indicando, então, a necessidade de se analisar essa possível desarmonia encontrada nos processos psicossomáticos a partir de uma compreensão mútua entre corpo e psique (DETHLEFSEN & DAHLKE, 2006).

Diante do exposto, com este estudo buscou-se proporcionar maior compreensão da psicossomática, ou seja, a aplicação do enfoque psicológico nos estudos dos transtornos corporais, principalmente abordando sua etiologia (fisiológica e psicológica); diagnóstico, enfocando fatores emocionais e estresse; além do tratamento que visa o entendimento global da pessoa, conforme esclarece a área da psiconeuroimunologia.

De igual forma, a importância e atualidade deste tema, bem como a pouca pesquisa existente instiga a uma compreensão do processo de adoecimento sob a ótica da psicossomática proporcionando, assim, importante subsídio não somente para a minha formação acadêmica, como para a prática profissional.

O referido trabalho objetivou a investigação do processo psicossomático de emoções ou conflitos psíquicos em suas manifestações corporais. Teve como objetivos específicos identificar os tipos de conflitos existentes nas somatizações; compreender os processos de interação mente e corpo; refletir sobre o contexto histórico da psicossomática, além de procurar expor a relação entre emoção e distúrbio orgânico.

  1. Desenvolvimento

2.1. Histórico da Psicossomática

O estudo da psicossomática situa-se entre o funcionamento mental e o funcionamento somático. Abrange as variações que na história da pessoa, manifestam-se de forma predominantemente corporal ou psíquica, dependendo das circunstâncias e dos recursos orgânicos e psicológicos de cada um, destacando-se desta forma, como um dos importantes aspectos da medicina atual (KOROVSKY, 1993).

Na década de 30 os psicólogos Ferenczi e Rodeck realizaram estudos sobre as relações mente-corpo, pois os mesmos reconheciam a importância das raízes emocionais de doenças orgânicas. Mais tarde, na década de 40, os psicanalistas Alexander e French iniciaram importante estudo em pacientes com hipertensão, úlcera, asma e colites. Os estudos destes pesquisadores foram de extrema importância para a medicina, contribuindo inclusive para a fundação da Associação Americana de Medicina Psicossomática que possibilitou um ímpeto maior às novas investigações (MELLO, 2002).

De acordo com o mesmo autor, alguns pesquisadores franceses e americanos observaram em alguns pacientes, características comuns tanto na forma de lidar com as emoções como na forma de pensar sobre elas. Estes pacientes foram então, denominados como psicossomáticos e, esse pensar foi denominado como pensamentos operatórios ou alextimia, caracterizados como a ausência de palavras para nomear as emoções.

Atualmente pode-se dizer que a abordagem psicossomática visa o entendimento da tríade corpo-mente-contexto, ressaltando a dinâmica e as modificações experienciadas pela pessoa em diferentes contextos os quais envolvem fatores biológicos, psicológicos e sociais (ANGERAMI-CAMON, 2001).

O fenômeno psicossomático apresenta-se em três tempos bem definidos, tendo início em algum trauma na infância (que pode ter sido uma perda de grande significância, do tipo morte ou separação), a evocação desse trauma (algum acontecimento que o faz relembrar desse trauma), e a expectativa da repetição, quando está, então, estabelecida a enfermidade (ANDERSEN, 2007).

Conforme Spnelli (2007) o movimento psicossomático surgiu no Brasil a partir da década de sessenta, período em que se estabelecia uma revolução entre Psicologia e Medicina buscando-se respostas para um melhor entendimento das doenças funcionais que não encontravam uma integração entre corpo e mente na prática da medicina.

2.2. Fisiologia: Breves Noções Sobre o Sistema Neuroendócrino e Imunológico

Torna-se relevante falar sobre os sistemas do organismo que estão interligados ao processo das emoções, corpo e distúrbios somáticos, neste referido estudo.

O Sistema Límbico tem a função de iniciar a avaliação das situações que o indivíduo vivencia, bem como, dos fatos e eventos de vida. Nesse processo considera distintos elementos tais como a personalidade prévia, a experiência vivida, as circunstâncias atuais e as normas culturais. É esse sistema que também estabelece diversas interações entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico, fazendo interagir as percepções corticocerebrais com o hipotálamo (BALLONE, 2002).

De acordo com Selye (1959) foi o fisiologista francês Claude Bernard quem introduziu o conceito de homeostase do organismo, esclarecendo que o mesmo refere-se à capacidade do indivíduo em manter a constância de seu equilíbrio interno, independente de todas as modificações que ocorrem no meio ambiente.

Quanto ao sistema endócrino, este desempenha as funções de integração e controle das atividades metabólicas do organismo. Compõe-se de glândulas endócrinas que funcionam individualmente, em série ou em paralelo, sendo que suas ações estão interligadas (GUYTON e HALL, 1998).

A glândula timo tem por funções o pré-processamento dos linfócitos “T” (início intra-útero), que são responsáveis pela imunidade celular. Entre os glóbulos brancos do sangue, alguns procedem dos órgãos linfáticos, outros da medula dos ossos. Essas células também são parte importante do sistema defensivo, especialmente contra infecções (SELYE, 1959).

O sistema imunológico do organismo se destaca por impedir que o mesmo contraia determinadas doenças. A imunidade surge de um processo exercido por funções celulares e hormonais, formando assim, o referido sistema. Logo, a função imunológica representa uma complexa rede onde o anticorpo reconhece o antígeno e então, este passa a não ser tolerado, denominando-se esta ação como reação auto-imune (CHIOZZA, 1987).

Quando se trata de assuntos relacionados ao estresse e doenças psiquiátricas, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal é o eixo mais estudado. Um estresse físico ou psicológico causa uma série de respostas fisiológicas, em que a principal é a liberação de cortisol pelas glândulas adrenais. Para responder a um determinado tipo de estímulo, os neurônios do hipotálamo secretam peptídeos que estimulam a produção e liberação de adrenocorticotrofina (ACTH) pela adeno-hipófise(KAPCZINSKI et. al., 2004).

Os corticóides além de agirem sobre as inflamações, o metabolismo mineral e a taxa de açúcar; também produzem outros efeitos como na pigmentação da pele, em reações emocionais e na pressão arterial (SEELEY e TATE, 1997).

Assim, entende-se, então, que será possível desenvolver terapias eficazes e específicas para os transtornos psiquiátricos e psicossomáticos a partir da compreensão detalhada das funções de integração e do funcionamento de cada tipo de neurotransmissores bem como de suas falhas em determinadas condições fisiopatológicas. Sabendo-se que o sistema nervoso central (SNC) tem a capacidade de unir informações provenientes tanto de fontes externas como internas (Kapczinski et. al 2004).

2.3. Psiconeuroimunologia

Na década de 70 o psicólogo Robert Ader e o imunologista Nicholas Conhem realizaram experimentos em ratos, observando a alteração do sistema imunológico dos mesmos, com o surgimento doenças e até a morte, e, a partir desses experimentos, adquiriram força os estudos sobre a relação entre cérebro e sistema imunológico; e tais descobertas fisiológicas, juntamente com vários estudos clínicos de doenças que vão do resfriado comum à AIDS, deram origem à área da Psiconeuroimunologia (REY, 2007).

Conforme este autor, a Psiconeuroimunologia é a ciência que estuda a interação entre o sistema psíquico e neurológico e ainda o seu nível de influência sobre o comportamento da imunidade do corpo e da saúde de uma maneira geral. Segundo diversas pesquisas perceberam-se que os pensamentos e as emoções são realmente capazes de determinar as condições de funcionamento da imunidade do corpo e fazê-la eficaz ou falha em seu trabalho de defesa, o que consequentemente pode determinar uma condição saudável ou enferma.

Assim, a psiconeuroimunologia estuda a relação entre o Sistema Nervoso Central (SNC) e o Sistema Imunológico, bem como as perturbações que se refletem em um e em outro, referindo-se como uma nova área da medicina.

Essa área também explica porque situações emocionais como a ansiedade, a depressão, o ódio, a insegurança, a angústia, o medo e todo o tipo de estresse, interferem diretamente na formação de diversos distúrbios cutâneos (EVELINE, 2007).

Esta autora ainda comenta que entre os exemplos típicos de distúrbios cutâneos associados ao sistema psiconeuroimunológico estão: a psoríase, o vitiligo, as alergias, a acne, a alopécia (calvície), a tricotilomania (arrancamento compulsivo dos cabelos), a rosácea e a hiperidrose (excesso de transpiração). A maioria dos estudos a respeito destas dermatoses mostra que seu surgimento ou agravamento estão fortemente ligados a pensamentos ou emoções que produzem elevados níveis de estresse no organismo.

O homem moderno vive constantemente tensões emocionais, prejudicando seu sistema nervoso e assim, causando distúrbios psicossomáticos, especialmente quando se trata de indivíduos já com baixa resistência no organismo. Estas seriam as chamadas organoneuroses que se definem como as doenças orgânicas que o sujeito apresenta como consequência de conflitos emocionais (SILVA, 1959). Na psiconeuroimunologia estuda-se este aspecto psíquico na díade saúde/doença, desempenhando papel ativo em sua progressão, recidiva, e, provavelmente, no aparecimento da doença.

Conforme diversas descobertas e estudos, considerando-se a gênese de algumas patologias como o câncer, a psiconeuroimunologia se destaca como recente campo de pesquisas. Este campo trata de um modelo multifatorial patológico, que busca evidenciar a importância de um modelo terapêutico multidisciplinar.

A psiconeuroimunologia busca enfatizar, então, a presença do aspecto psicológico nas doenças, referindo-se ao estudo das interações entre fatores psicológicos com o sistema nervoso e o sistema imunológico. Logo, as pesquisas nessa área se centram no papel que os fatores psicológicos podem desempenhar na suscetibilidade a infecções (PINEL, 2005).

2.4. Estresse e suas Consequências

O termo estresse surgiu para designar as forças envolvidas em uma situação de ameaça à homeostase. Também é referido como qualquer mudança física ou psicológica que rompe o equilíbrio do organismo (altera a homeostase).  O organismo reage ao estresse ativando um complexo repertório de respostas comportamentais e fisiológicas (KAPCZINSKI et. al., 2004).

O estresse, seja de natureza física, psicológica ou social, compreende um conjunto de reações fisiológicas, as quais, sendo exageradas em intensidade e duração, acabam causando um desequilíbrio no organismo, muitas vezes com efeitos danosos (BALLONE, 2002). Já há algumas doenças cuja etiologia psicológica está comprovada, são elas: asma brônquica, urticária, doenças infecciosas, artrite reumatóide, colite ulcerativa, neuplasias (câncer), esclerodermia, lupus eritematoso sistêmico, dermatomiosite (MOTTA, 2005).

Ao passar por uma situação muito difícil, estressante ou problemática o corpo fica diferente, ocorre o processo chamado de somatização, ou seja, a transferência para o corpo do que deveria ser vivido e suportado apenas na mente. Segundo os profissionais que trabalham na área da psicossomática, todas as pessoas acabam provocando mudanças no corpo ao enfrentar determinadas situações emocionais, principalmente as que produzem estresse e ansiedade. O que diferencia é a intensidade e a freqüência com que isso acontece, ou seja, quando certos eventos ocasionais se tornam transtornos repetitivos e acabam se tornando crônicos (IWASSO, 2005).

Os desenganos, as desilusões, as frustrações, as decepções, as preocupações penosas, a dor moral, as indecisões; acarretam descargas emocionais, desgastando o sistema nervoso. Surgem, então, diversos males psíquicos e desordens somáticas (SILVA, 1959). A resposta imune ao estresse se dá através de uma ação conjunta entre o sistema nervoso, sistema endócrino e sistema imunológico. Por excesso de intensidade ou duração do estresse pode surgir alguma doença atrelada a qualquer desses sistemas (BALLONE, 2002).

O estresse psicossocial pode caracterizar-se por situações de perda tais como mortes, divórcio, viuvez, entre outras. E também envolve eventos que demandem a capacidade de reajustamento do sujeito, ou seja, sua tendência a avaliar as situações como estressantes ou não, de acordo com seus recursos e habilidades. As emoções sucessivas e reiteradas que desgastam a resistência nervosa, explicam o aparecimento de sinais de estafa, que surgem precoce ou tardiamente, sob diferentes formas de transtornos somáticos (SILVA, 1959).

2.5. Fatores Emocionais

Dentre os fatores responsáveis pelo surgimento, curso e evolução das doenças, os fatores emocionais destacam-se como um dos mais relevantes, fatores tais como decorrentes dos relacionamentos interpessoais, estresses sociais e estrutura da personalidade (RAMOS, 1994).

De acordo com Pinel (2005) pesquisas recentes destacam a influência significativa de características de personalidade na tendência ao desencadeamento do câncer, destacando aspectos de comportamentos que o sujeito tende a apresentar tais como emoções negativas, amabilidade exagerada, alta conformidade social, fuga de conflitos, sutileza patológica, entre outros. Uma vez que esses sujeitos apresentam dificuldades em saber lidar com emoções adversas, estas acabam sendo somatizadas de diferentes maneiras.

Determinados fatores biopsicossociais como isolamento, carência de suporte social, carência afetiva e pobreza, incidem sobre a personalidade dos indivíduos predispostos, possibilitando o surgimento de novas desordens somáticas o que denota a forte associação entre algumas disposições do comportamento e meio ambiente com o desenvolvimento de patologias somáticas (SILVA, 1959).

A base da estrutura da personalidade da pessoa enferma compreende tendências à regressão, à passividade, dependência e sensibilidade às frustrações. Essa sensibilidade é uma característica que está na base da construção do comportamento, deixando a pessoa mais vulnerável a qualquer infecção ou lesão corporal bem como em sua auto-estima (ANGERAMI-CAMON, 2001).

A incidência dos fatores psíquicos e das causas ditas psicógenas aparece como papel de destacada importância na gênese das somatizações. Os diversos estados emocionais despertados pelas contingências da vida como frustrações, desgostos, disputas, desilusões, remorsos, etc. podem agir como fatores desencadeantes (SILVA, 1959).

Cabe destacar, então, que a doença somática, mesmo apresentando caráter desviante e regressivo, se destaca como alternativa de estabelecimento do equilíbrio do organismo, que até então, não conseguiu lidar de modo mais saudável e evoluído com suas tensões internas e externas. Os sonhos e a capacidade de fantasiar são importantes funções de proteção e regulação do equilíbrio do organismo; mas muitos indivíduos apresentam essas capacidades deficitariamente, ou seja, apresentam níveis precários de funcionamento desses recursos (VOLICH, 2003).

Raiva, paixão, tristeza, medo e uma série de emoções causam alterações no organismo, liberando ou inibindo a produção de substâncias, como adrenalina, cortisol e serotonina. Desse modo, a desordem no corpo desencadeia o aparecimento dos sintomas, mas o local escolhido depende da herança genética e racial de cada pessoa, além da composição física e das reações da pessoa. O indivíduo tende a somatizar nas áreas do corpo que já estão mais fragilizadas ou já tiveram um problema no passado (IWASSO, 2005).

2.6. O Corpo Doente – da Emoção à Lesão

O aumento do interesse no estudo da influência de fatores psicossociais sobre as doenças imunológicas ocorreu devido às discussões freqüentes envolvendo a influência de fatores psicológicos na suscetibilidade e desenvolvimento de determinadas doenças.

As doenças podem ser divididas em dois tipos quanto à sua origem; a) doenças de origem externa que são aquelas causadas por desequilíbrios adquiridos no ambiente, e b) as de origem interna que apresentam como gênese um desequilíbrio emocional. Para qualquer transtorno seja ele de ordem emocional quanto comportamental, há um órgão, ou víscera ou ainda um sistema orgânico que será afetado. (MACIOCIA apud MIORIM, 2006).

Clinicamente, há uma ampla variedade de transtornos psicofisiológicos associados à ansiedade, entre eles os transtornos cardiovasculares, digestivos, sexuais, transtornos alimentares, dermatológicos, além de asma, cefaléias, síndrome pré-menstrual, dependência química, debilidade do sistema imune, etc. As classificações tradicionais dos transtornos psicofisiológicos descrevem tais doenças como relacionadas a variáveis psicológicas (BALLONE, 2007).

Atualmente há dados suficientes para se afirmar que as emoções positivas (alegria, felicidade, amor) potencializam a saúde, enquanto as emoções negativas (raiva, tristeza, ansiedade) tendem a comprometê-la. Por exemplo, em períodos de estresse, quando as pessoas desenvolvem muitas reações emocionais negativas, é mais provável que surjam certas doenças relacionadas com o sistema imunológico, como por exemplo, gripe, herpes, diarréias, ou outras infecções ocasionadas por vírus oportunistas. Em contrapartida, o bom humor, o riso, a felicidade, têm se mostrado como fatores eficientes na manutenção e ou recuperação da saúde (BALLONE, 2007).

Cada vez que uma pessoa não consegue suportar no plano psíquico uma situação, ela acaba produzindo ou agravando sintomas e doenças que se manifestam no corpo. Palpitações, gastrite e dores de cabeça estão entre os sintomas mais comuns, mas a somatização pode deixar o organismo com menos defesas para doenças sérias, como câncer, além de prejudicar, por exemplo, a recuperação de uma cirurgia (IWASSO, 2005).

  1. Considerações Finais

A realização deste estudo buscou evidenciar a abordagem da psicossomática como uma área de compreensão do indivíduo, existindo em múltiplos níveis e domínios de igual importância, não devendo ser fragmentado, segundo o modelo biomédico. Conseguiu-se, assim, compreender o processo de emoções e conflitos psíquicos nas manifestações corporais, onde o ser humano é visto como um sistema complexo em que se destacam os fatores biopsicossociais na origem de suas enfermidades orgânicas.

Uma vez que o ser humano está constantemente interagindo com outros sistemas, como: meio ambiente, pessoas, cultura, etc.; assim compreende-se que o modelo psicossomático visa o desenvolvimento de processos naturais de cura para os indivíduos, em conformidade com os programas de saúde convencionais. A psicossomática como abordagem interdisciplinar busca a compreensão da saúde humana, como destaca Limonge apud Miorim (2006), sendo enfatizados os fatores orgânicos, psíquicos e sociais.

Destaca-se a relevância dos aspectos emocionais, muitas vezes desconsiderados pelo saber médico-clínico, como fatores de extrema influência no desencadeamento, curso e prognóstico de diversas patologias. O quanto se deve atentar para características de personalidade, intensidade de emoções ditas negativas, estresse, fatores sócio-culturais, entre tantos outros, para uma melhor compreensão da enfermidade apresentada pelo sujeito.

Em se tratando da área da medicina, compreendeu-se que as emoções afetam o sistema límbico (cérebro) e também os impulsos nervosos (hipotálamo), influenciando ainda, o centro nervoso simpático e parassimpático. Por isso entende-se que o impulso nervoso que se originou de uma indisposição emocional é logo transmitido a um órgão relevante, considerando-se aí, um dos processos de interação mente e corpo, como um dos pontos discutidos nesse estudo.

Outra área que trouxe muitas colaborações para o entendimento da relação mente e corpo é a psiconeuroimunologia que compreende a interação e as perturbações entre o Sistema Nervoso Central (SNC) e o Sistema Imunológico. Tais sistemas, segundo expõe Ballone (2001), são os avaliadores dos elementos externos ao sujeito, servindo como defesa do mesmo e também a uma melhor adaptação à realidade externa em que vive o indivíduo.

O estresse físico, psicológico ou social, também foi identificado como fator de forte influência sob o organismo do indivíduo, desencadeando diversas reações fisiológicas (SELYE, 1959). Tais reações sendo muito intensas acabam causando desequilíbrio ao organismo como perturbações nervosas e emocionais, úlceras, pressão alta, doenças cardiovasculares, renais, entre outras (BALLONE, 2002). Assim entende-se o sintoma psicossomático como um conflito com intensa carga emocional em que não houve a possibilidade de ser elaborado pela consciência do indivíduo, portanto, teve de ser encaminhado para o corpo (soma).

De acordo com as informações precedentes, compreende-se o surgimento da psicossomática como uma reação salutar à medicina tradicional, que se define como examinadora apenas do corpo, do puramente físico. Conforme o atual conhecimento relativo ao mecanismo das emoções se reconhece a influência dos estados emocionais, dos anseios, das desilusões, das paixões, dos conflitos de consciência e das frustrações sobre as diversas funções corpóreas sujeitas que estão, incessantemente, às mínimas oscilações que se verificam no estado emocional.

A constatação da influência da carga afetivo-emocional na gênese de muitas enfermidades constitui-se em desenvolvimento proeminente para os estudos da medicina e psicologia na atualidade.

Sobre os Autores:

Flávia Calixto Pires – psicóloga (CRP 07/17614).
Fonte: https://psicologado.com/psicossomatica/adoeci-por-que © Psicologado.com

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