A Vivência Transexual: Uma Perspectiva Psicanalítica

Resumo: O presente estudo buscou problematizar a noção de transexualidade, assim como a pertinência de uma identidade transexual na perspectiva da psicanálise, utilizando-se para tanto as contribuições de Freud e de um autor contemporâneo da psicanálise americana, Robert Stoller. Colocando-os em diálogo, foram investigadas novas possibilidades de compreensão do fenômeno para além do campo da psicopatologia, abrindo espaço teórico e ético para as novas manifestações da sexualidade.
 

  1. Referencial Teórico

A definição der um homem ou de uma mulher envolve muito mais do que a determinação de seu sexo biológico. Aspectos como sentimentos, atitudes e comportamentos ditos masculinos ou femininos também estão envolvidos. Turner (2000) considera que um sistema de estratificação de gênero passa a existir quando posições ocupadas por homens e mulheres implicam diferentes quantidades de poder, prestígio, renda e outros recursos de valor. Ele pondera que desde que os homens abandonaram a caça e a colheita, há mais ou menos 15 mil anos, pode-se observar que as sociedades passaram a ser estratificadas por gênero, favorecendo os homens em detrimento das mulheres.
Os papéis de gênero aprendidos pelas crianças na família, escola e nos meios de comunicação de massa são responsáveis pela formação das bases de suas futuras interações sociais como adultas (BRYN, 2006 p. 262) e, consequentemente, da qualidade das mesmas. Assim, consideramos pertinente questionar o enquadre do gênero na definição dos indivíduos. Não seria necessário o uso de conceitos mais amplos e flexíveis que abrangessem na reflexão sujeitos transexuais?
Harry Benjamin, sexólogo de origem alemã, foi o criador do conceito de transexualismo. Em linhas gerais, tal conceito caracteriza uma posição subjetiva que comporta um sentimento intenso de não pertencimento ao sexo anatômico, sem a manifestação de distúrbios delirantes e sem bases orgânicas (como o hermafroditismo). Para a Psiquiatria, no entanto, trata-se de um tipo de condição sexual admitida como uma entidade nosológica, denominada transtorno de identidade de gênero (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders – DSM-IV) ou sexual (Organização Mundial de Saúde), ou ainda, transexualismo (Conselho Federal de Medicina – CFM), cuja principal característica é o antagonismo entre sexo e gênero.
Em nosso tempo, vê-se surgir, ou melhor, produzir-se a transexualidade como sintoma social. Neste caso, o fenômeno difere do transexualismo psicótico pelo fato da recusa da diferença sexual não se basear num quadro de delírio ou alucinação. Atualmente, coexiste lado a lado na reflexão teórica, o transexualismo como a expressão do sentimento subjetivo de pertencer ao sexo oposto àquele que sua anatomia indica e o transexualismo como um não saber do sujeito quanto ao seu sexo, por uma identificação sexual simbólica não realizada. No primeiro caso, que é o que nos interessa, a transexualidade é relativa a um desejo, de um sujeito que, embora sabendo muito bem a que sexo pertence, quer ser reconhecido como pertencendo ao sexo oposto àquele indicado por sua anatomia, e ao qual ele teria se identificado simbolicamente.
Stoller (1982) relata no livro A experiência transexual os resultados de seus estudos, que o levaram a desenvolver uma teoria não biológica para a questão do transexualismo. Estudou nove casos com idades entre cinco e quarenta anos. A partir desses casos, elaborou hipóteses sobre a existência de uma determinada configuração familiar que produz o transexual masculino. A reunião de alguns fatores elevaria a chance do mesmo acontecer. São eles: (I) uma mãe bissexual; (II) pai ausente física e psicologicamente; (III) um longo período de união ininterrupto entre mãe e filho e (IV) a beleza especial do menino. A hipótese pode ser resumida do seguinte modo: a intensa aproximação com a mãe leva a um desenvolvimento não traumático e não conflituoso da feminilidade no filho. A ausência do pai, por sua vez, impossibilita uma identificação com a figura paterna e dificulta o desenvolvimento da masculinidade. Para Stoller, a mãe do menino transexual é uma mulher que na infância desenvolveu um forte traço de masculinidade que é mesclado com sua feminilidade. Na medida em que não pôde desenvolver sua feminilidade, uma intensa inveja do pênis passa a dominá-la, o que a faz no futuro colocar o seu filho no lugar desse pênis desejado. (STOLLER, 1982, p. 40). Um dado relevante é o fato do transexual masculino não chegar a viver o conflito edipiano, pois não precisa rivalizar com o pai, já que tem sua mãe totalmente para si. Isso nos faz indagar reflexões perspicazes a respeito do envolvimento mãe-filho. Porém, nessa visão o transexualismo não seria uma psicose, pois a ideia de pertencer a outro sexo não tem uma conotação delirante, mas algo como uma ilusão à qual a criança foi levada a acreditar.
A fim de discutir a hipótese de Stoller sobre as características de mães de transexuais, selecionamos alguns recortes de falas citados pelo autor, provenientes de entrevistas realizadas com transexuais e com suas mães.
1.1 Relação Mãe e Filho Transexual
Segundo Freud, é a partir da identificação com a mãe, ou com o lugar imaginário que esta ocupa no imaginário do menino, que este escolherá narcisicamente o seu objeto sexual e o amará e cuidará com o mesmo ardoroso amor que sua mãe um dia lhe dedicou. A comparação entre feminilização e homossexualidade é derivada desta força da identificação imaginária feminina, contra o qual o menino deveria se rebelar para assim seguir na via da masculinidade:
Se meninos, no interior da normal simbiose criança-mãe, identificam-se com suas mães, e se excessiva, prolongada e feliz proximidade produz neles uma extrema feminilidade, o menino que se deve tornar masculino terá de repudiar aquela feminilidade. Mas então a feminilidade (identificação feminina) estará presente não por ser parte da herança biológica da humanidade, mas, antes, porque todos os meninos têm mulheres como mães (STOLLER, 1982, p. 13)
Mães simbióticas, como as mães de transexuais, posicionam seus filhos como extensões delas mesmas. Pode-se dizer que na constituição da identidade do sujeito transexual a mãe e o filho se mantêm conectados de tal forma que impossibilita ao filho a construção de sua individualidade, o condenando à feminilidade, que, para Stoller, é primária. A feminilidade primária, defendida hipoteticamente por Stoller é uma das divergências da tese freudiana da masculinidade primária, pois segundo Stoller, todos seriam submetidos em função da qualidade simbiótica do vínculo inicial estabelecido entre mãe e filho.
Stoller aponta a noção de “núcleo de identidade de gênero” como o elemento central da compreensão da experiência transexual. Trata-se de um conceito que vale a pena ser referido por nós para clarear esse ponto da discussão. Este conceito refere-se ao sentimento de ser homem ou mulher estabelecido no segundo e terceiro anos de vida, tornando-se fundamental para entender a transexualidade. Levando em conta este ponto de vista, a definição de transexualidade permeia dois principais aspectos: (I) Um sentimento de identidade permanente, ou seja, uma crença; (II) Negação da masculinidade encarada “como terror” (não existindo nenhuma forma de investimento libidinal).
Considerando que a capacidade de interação social destas pessoas permanece intacta, Stoller ressalta que esta relação originária não pode ser considerada psicotizante. Assim, apesar da referência ao transexualismo como uma “desordem” ou “patologia”, o trabalho de Stoller nos proporciona a descrição apenas de experiências de vida e não de avaliações nosográficas. Neste sentido, a compreensão se desenvolve sob novos olhares.
Algo muito presente nos discursos das mães de transexuais, apontados por Stoller é o fato de seus filhos, quando criança, possuírem uma beleza incomum. Stoller diz que esse sentimento, com aguda intensidade, está presente desde a primeira vez que a mãe vê o seu bebê. Embora seja comum mães acharem seus bebês belos, o autor enfatiza que a característica diferencial dessas mães é a valorização positiva extravagante. Cabe salientar que Stoller não deixa claro até que ponto esse conceito de extravagância é patológico, nem esclarece sobre a intensidade desse sentimento das mães dos transexuais, e nem como esses sentimentos permanecem ao longo dos anos sem interromper a simbiose mãe-filho.
Stoller (1982) diz que:
Para todas as mães, o bebê equivale a um pênis, especialmente se ele for do sexo masculino, mas para essas mães, com o desejo ardente que sempre tiveram por um pênis, e com sua solidão vazia, esse fálus assume uma intensidade que não vemos em situações mais normais.
Apesar de toda mãe, segundo a Psicanálise, querer que seu bebê seja de tal forma equivalente ao pênis, resta a questão: por que iria querer, mesmo que inconscientemente, que aquele bebê que representa o pênis se transformasse numa mulher?
É importante destacar que, para Stoller, esses meninos não são feminilizados porque suas mães desejavam uma menina. Pelo contrário, as mães se mostram felizes por terem dado à luz um menino. E têm uma surpreendente mistura de inveja e admiração pelo pênis. Admiração manifesta em relação a seu filho transexual.
Geralmente os meninos transexuais são as crianças mais novas da família, não havendo interrupções na simbiose mãe-filho por parte da chegada de nenhuma outra criança. Assim sendo, uma filha que ela possa ter nunca preencherá essa lacuna. A relação simbiótica é tão intensa que a mãe chega a tratar seu filho como parte de seu próprio corpo e a criança, diante disso, considera-se como sendo parte do corpo dela, ou seja, do corpo de uma mulher (STOLLER , 1982).
Stoller sugere ainda uma diferenciação entre o diagnóstico de como seria uma mãe “normal” da mãe do transexual, levando em conta o aspecto da idealização do filho. Uma mãe “normal” se sente anatomicamente mais completa, com momentos de abertura e comunicação com o filho, experimentando prazeres ao sentir a pele do bebê, e tratando o seu filho como produto do seu corpo. Ou seja, nessa relação simbiótica mãe-criança há períodos de perfeita sintonia e proximidade. Já numa mãe patológica há a supervalorização do filho “belo”, protegendo-o de todos os modos a fim de evitar qualquer sofrimento físico e emocional que posso ocorrer com o mesmo, permanecendo nesta simbiose por anos a fio.
Estamos caminhando, pois, no sentido de fazer compreensível o desenrolar dessa relação entre uma mãe de transexual e seu filho transexual. Baseando-nos em os apontamentos de Stoller, trata-se de uma mãe que “cria” um filho transexual, dado ser a mesma uma peça essencial no desenvolvimento da masculinidade e da feminilidade na criança. Há ainda outra noção importante na etiologia do transexualismo: a predisposição difusa para o desenvolvimento deste traço. Está em jogo uma possível “sensibilidade” do menino. Em síntese, a hipótese de Stoller aponta para uma mãe que desenvolve com o filho uma ligação simbiótica, com marcas de fascinação e inveja, e sublinha a predisposição do filho para responder a essas demandas maternas.
Para mim, a mais importante diferença entre episódios felizes de uma educação normal e a simbiose que produz o transexualismo é que, essa última, é infindável. Ele não é voluntariamente interrompido nem pela mãe nem pelo pai (STOLLER, 1982, p. 49)
A inscrição do filho na masculinidade depende de sua separação da mãe, o que faz com que a criança vivencie o conflito edípico. Stoller diz que caso isso não ocorra o menino pode sofrer um dano em relação a seu senso de feminilidade, desenvolvendo possivelmente uma identidade sexual feminina, constituindo, pois, o transexual.
Questionamos certo determinismo na equação armada por Stoller. Sabemos que, em Freud, não existe um determinismo para questões relacionadas à construção da sexualidade humana. Compreendemos que para este autor a bissexualidade psíquica seria condição originária, mas não determinante. O ambiente teria um papel importante a cumprir no resultado final. O mais intrigante é que, na maioria dos casos, os seres humanos passam por vivências simbióticas com suas mães, são idealizados pelas mesmas e apresentam originalmente um misto de traços masculinos e femininos. E tais mães, por sua vez, invejam o pênis enquanto falo. Mas nada disso impede a construção de identidades masculinas e femininas nas quais gênero e sexo biológico coincidem. Freud assinalava a ausência de uma correspondência necessária entre pulsão e objeto, podendo este último adquirir um caráter variável. Com isso, as possibilidades subjetivas se fazem de acordo com a incerteza e a imprevisibilidade das experiências, moldadas pelos contextos históricos e sociais nos quais estão atreladas.
1.2 Freud e a Teoria da Bissexualidade
Como já é de nosso conhecimento, Freud conceituou uma bissexualidade biológica e uma psicológica, sendo ambas presentes em todos os seres humanos, independente de suas experiências de vida. Ele acreditava que em alguns casos o componente biológico era o facilitador de maior peso, enquanto em outros seria o psicológico, mas de forma geral, há uma grande mistura dos dois.
A bissexualidade, diz Freud, “ofusca e embaralha nossa visão sobre a natureza das escolhas objetais primárias” (1923). Para ele, a bissexualidade era uma disposição psicológica responsável pelas diferentes escolhas de objeto, homossexual e heterossexual, considerando que em todo sujeito encontramos ambas as formas de escolha de objeto em quantidades diversas. Em 1908, no artigo sobre Fantasias histéricas e sua relação com a bissexualidade, Freud enuncia que há uma “disposição bissexual inata no homem” (p. 146).
Dois pontos se destacam. O primeiro: a ideia de que masculinidade e feminilidade se fazem presentes em homens e mulheres e, o segundo, o fato das crianças exprimirem um amor edipiano invertido e carregarem essa memória por toda a vida. Ou seja, para Freud, entre as idades de 3 e 7 anos o filho desenvolve um desejo incestuoso inconsciente para com a mãe e um sentimento de intensa rivalidade e hostilida­de para com o pai, da mesma forma que a filha desenvolve apego para com o pai e rivalidade para com a mãe, conhecido como o Complexo de Édipo. Porém, pode dar-se de forma oposta: o filho sente-se apegado ao pai e a filha apegada à mãe.  Apesar de Stoller caminhar pelo trilho das teorias da sexualidade em Freud, como base referencial para suas interpretações, nada disso garante as contingências apontadas pelo autor na sua teoria da identidade transexual.
1.3 Psicoterapia da Transexualidade Infantil
Stoller também se preocupou com os problemas relativos ao tratamento da transexualidade. Um dado de realidade é que quanto mais tarde se percebe o aspecto não normal da identidade de gênero da criança, adiando-se consequentemente o tratamento, menor será o desejo de mudança – elemento fundamental para que um processo psicoterápico se desenvolva. O autor relata casos de mães que levaram seus filhos ao consultório por estarem preocupadas pelo fato deles brincarem com bonecas e usarem roupas impróprias e apresentarem outros comportamentos “anormais”. Quanto mais cedo essas mães tomassem consciência desses “desvios”, mas fácil seria seu “tratamento” e sua “cura”.
Somos otimistas que, após lamentar suas perdas, esses meninos possam experimentar que realmente vale a pena ser um homem. Esperamos que, assim como aprender a língua de um país seja mais fácil para crianças que para adultos, mesmo essas crianças “deslocadas” possam aprender a nova linguagem da masculinidade (STOLLER, 1982, p. 93)
Uma criança possui possibilidades em tratamento psicoterápico, com modificações comportamentais, compreensão da dinâmica familiar, etc. Porém, o caso a se pensar nessa temática é como o processo terapêutico alcançará essa mãe, dominadora e poderosa, em sua contínua relação simbiótica com esse filho, se tomamos como base a hipótese de Stoller. Alguém precisa entrar nesse encontro mãe-filho, promovendo um espaço subjetivo na psique infantil da criança e no imaginário dessa mãe.  Stoller assegura ser esse papel de um terapeuta masculino que levará a criança a viver um complexo edipiano, com a esperança de que haja uma identificação com outras figuras masculinas relevantes e presentes em sua vida. Stoller nomeia esse tratamento de Complexo de Édipo terapeuticamente induzido. (STOLLER, 1982, p. 33). Mas, como estabelecer uma transferência com uma figura masculina visando a introjeção de um complexo edipiano induzido? Percebe-se em que Stoller (1978, p. 211) acredita:
As palavras “incorporação”, “introjeção” e “identificação” conotam uma atividade motivada, dirigida em direção a um objeto que não é reconhecido como parte de si mesmo. Isso significa que deve haver uma psique (mente) suficientemente desenvolvida para apreender o objeto (parcial) e desejar alojá-lo no interior de si […]. Mas nossa teoria deve também reservar um lugar para outros mecanismos, não mentais (quer dizer, não motivados pelo indivíduo), graças aos quais a realidade externa possa também encontrar seu lugar no interior.
Um indicador que o tratamento teve êxito, ou seja, que o complexo de Édipo foi induzido corretamente seria o surgimento de uma ampla hostilidade para com a mãe. Mas para que essa indução obtenha sucesso devem ser ressaltados os elementos estruturantes da identidade masculina hegemônica. A partir do reconhecimento do pênis como um elemento diferenciador entre o masculino e o feminino, passa-se a agregar novos significados ao sexo anatômico do menino. O reconhecimento do pênis, ao passo que diferencia esse sujeito das mulheres, apresenta-se como um elemento de identificação com uma condição de superioridade.
Se referindo a um exemplo que, segundo o autor, obteve êxito, Stoller (1982) diz:
Os meninos começam a valorizar seu pênis (por exemplo, eles passam a ficar em pé para urinar, enquanto antes se sentavam); desenvolvem fobias; atacam fisicamente mulheres – bonecas e meninas, sendo o prazer, mas do que a raiva, o afeto dominante; aparecem brincadeiras muito mais intrusivas, tais como atirar e acertar bolas em suas mães e em outras mulheres. (p. 29)
Na pesquisa de Stoller, contudo, apenas um menino, de um total de oito casos, terminou o tratamento que consistia em psicoterapia. Stoller desabafa:
Onde conseguimos menos sucesso, mas ainda criamos algum senso permanente de masculinidade, terminaremos, talvez, com homens homossexuais, um resultado mais feliz, acreditamos, do que a condição inalterável de transexualismo adulto (STOLLER, 1982, p. 279)
Stoller estabelece assim uma hierarquia a respeito da felicidade na vida humana. Nesta, a condição do transexualismo estaria em último plano, como uma expressão patológica. A homossexualidade, por sua vez, seria uma condição de menos infelicidade num caminho que teria como fim a normalidade heterossexual. No entanto, demonstrando sensatez e senso crítico, Stoller levanta questionamentos sobre a eficácia dos tratamentos de transexuais. Segundo o autor:
Começamos a nos perguntar por que insistíamos em fazer com que os meninos se tornassem masculinos. A resposta parecia tão óbvia, a principio, que nós nunca colocamos a questão; concordávamos com toda a sociedade, com a posição gerada pelo bom senso, de que a identidade de uma pessoa deve-se adequar à sua anatomia. Agora tendo ancorado as dificuldades em tornar essas crianças masculinas e o fato de ainda não estarmos certos se o tratamento tem sucesso com eles, gostaria de saber quanta angústia temos o direito de causar-lhes. Eu não o perguntaria, se nosso sucesso em levá-los a criar uma masculinidade fosse verdadeiro e profundo, mas o núcleo da identidade genérica é de tal forma fixa, tão cedo em vida, que tentar removê-la e substituí-la por seu oposto – masculinidade, a mais discrepante identidade que o menino pode criar – é um processo cruel. E como sua mãe também, luta contra nós (STOLLER, 1982, p. 275)
Percebemos que apesar da transexualidade ser vista por Stoller como uma condição patológica, isso não significa que o autor minimiza os efeitos colaterais que podem ser causados por uma tentativa de “cura”. Se, por outro lado, mudar o sexo de um ser biologicamente masculino nos assusta, principalmente por sabermos que o tratamento mais típico para o fenômeno transexual se encontra na intervenção cirúrgica e hormonal, com todos os efeitos paradoxais possíveis, também nos parece igualmente assustador imaginar a aplicação de uma norma curativa por parte dos psicoterapeutas no sentido de adequar o destino sexual biológico ao gênero correspondente, sem a devida preocupação com os efeitos opressivos e discriminatórios gerados por este ato.

  1. Considerações Finais

No Brasil, desde 1997 foi autorizada a cirurgia de Redesignação Sexual em Hospitais públicos, porém com idade mínima de 21 nos e o acompanhamento psicológico de duração de dois anos com intervenções multidisciplinares. Em consonância com esta lei, a questão mais relevante a ser perseguida pelos profissionais de saúde nos parece ser a desconstrução da marca patológica associada aos indivíduos transexuais. As hipóteses psicanalíticas inicialmente defendiam um diagnóstico sintomático, no qual o transexualismo era visto como uma saída psicótica. Para a psiquiatria a visão é de transtorno, ou seja, de um sujeito possuidor de uma desordem. Diante desta tendência patologizante, que negligencia uma compreensão mais aprofundada de tal fenômeno, Robert Soller traz a tona o cerne da questão. Diz o autor:
Para mim, a maioria das teorias psicanalíticas do sadismo e do masoquismo são água morna disfarçada como iguaria de gourmet. Devemos ser cuidadosos, especialmente aqueles dentre nós que nos orgulhamos de nossa empatia, para não pensarmos que compreendemos determinadas experiências que estão muito além das nossas próprias; devemos ser particularmente cautelosos quando nossas convicções estão fortificadas pela validação consensual.
Não evidenciamos teorias que determinem o individuo em diversos fenômenos buscando uma “fórmula” exata (neurológicas e/ou genéticas) para determinado fim como centro de razão e causa. Existe em torno dessa particularidade da vivência transexual, uma construção de identidade subjetiva essencial para seu desmembramento, que alimenta o individuo de caráter feminino e masculino e tantas outras características fundamentadas nos laços de relacionamentos e no sentido atribuído a tais características.
Portanto, não se nega que há algo nos seres humanos que não se encontra no processo evolutivo de nenhum outro ser, como por exemplo: a capacidade de emocionar-se, de envolver-se, de afetar e de sentir-se afetado. Assim, atentamos na trajetória de vida no qual os sujeitos estão inseridos, composto de características compartilhadas e dotados de uma singularidade que atravessam a história e nos tornam únicos. Nos detemos ao estudo da transexualidade  pela ótica do real, ou seja, o mesmo não nos permite conclusões definitivas, pois as ideias estão em constante transformação.
Sobre os Autores: Taciana Feitosa de Melo –  Graduanda em Psicologia pela Faculdade Frassinetti do Recife-FAFIRE e pesquisadora do NUPIC sob a orientação do professor Carlos Henrique Ferraz
Anaysa Camara de Souza – Graduanda em Psicologia pela Faculdade Frassinetti do Recife-FAFIRE e pesquisadora do NUPIC sob a orientação do professor Carlos Henrique Ferraz
Lucilayne Maria da Silva Muniz –  Graduanda em Psicologia pela Faculdade Frassinetti do Recife-FAFIRE e pesquisadora do NUPIC sob a orientação do professor Carlos Henrique Ferraz
Fonte: https://psicologado.com/psicologia-geral/sexualidade/a-vivencia-transexual-uma-perspectiva-psicanalitica © Psicologado.com
 
 

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