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Os Aspectos Destrutivos da Dependência nas Relações Amorosas

 

Autor: Christiane Souza de Andrade Silva

 

 

Resumo: O presente artigo tem como ponto de partida analisar os aspectos destrutivos da dependência amorosa. Pretendemos fazer uma explanação sobre a dependência afetiva desde seu processo de formação até suas repercussões na vida do individuo. Consideramos relevante falar sobre um tipo de amor que provoca, para muitos, sofrimento psíquico, ansiedade e que em muitas situações preenchem sessões de psicoterapia e mudança de uma rotina funcional para uma disfuncional. Dentro da mesma linha temática falaremos do apego como objeto de vinculação e uma das principais causas da formação da dependência. Defenderemos que um vínculo mal formado com a principal figura de apego na infância traria transtornos nos relacionamentos na vida adulta. O vicio afetivo possui características como qualquer outra adicção e para isso precisa de um olhar individualizado, diferente de outras patologias. Abordaremos complementarmente os processos que envolvem a idealização do amor e como estão associadas à dependência afetiva. Não temos a pretensão de analisar com efeito de julgamento os efeitos de um amor dependente, lembramos antes disso que, em muitos casos a dependência é único recurso que o sujeito pode lançar mão em detrimento de sua saúde psíquica.

 

O tema para este artigo surgiu da inquietação sobre alguns modelos conflitantes de relacionamentos amorosos e os fatores que levam os parceiros a fazer as escolhas com quem se vincularão afetivamente. Para isso, utilizaremos como ponto de partida a dependência afetiva que revela como o indivíduo se apoia e confia no outro para sua existência e, portanto, possui uma referência disfuncional. Sabemos que construímos nossa afetividade desde o momento primário, no relacionamento profundo entre mãe e filho nas primeiras fases da vida, e que qualquer quebra nessa relação pode influenciar negativamente na forma como o sujeito irá se relacionar com o outro. A dependência afetiva é um dos fatores que fazem os consultórios psicológicos estarem abarrotados. Nem sempre as pessoas conseguem lidar com o fato de estar só e veem no outro a esperança, mesmo que a relação esteja completamente fadada ao insucesso e o rompimento eminente. O apego acaba gerando mais sofrimento e um gasto dispendioso de energia, transformando os relacionamentos no “mal do amor”.

Defenderemos também como a dependência afetiva está ligada ao termo adicção [1] que comumente é associada à dependência química, mas tem muita relação com a dependência afetiva emocional, uma vez que envolve a adoção patológica de um objeto que não necessariamente a droga sintética, o álcool ou o tabaco, na tentativa frustrada de lidar com seus conflitos psíquicos. No dependente afetivo não devemos nos ater unicamente em sua dependência, mas como as pessoas envolvidas internalizaram seus objetos primários e até que ponto necessitam compensar as suas faltas.

No segundo momento abordaremos a expectativa criada pelo amor idealizado e o amor real, onde diante de nossas primeiras aspirações infantis embasadas pelo amor que vivenciamos em nossas famílias de origem transferimos e o idealizamos com os parceiros. Nesses casos o desfecho é sempre o mesmo, frustração e conflito na maior parte das vezes, por querer forçar uma situação ou um modo de ser que não corresponde a realidade, e sim a uma fantasia gerada no inconsciente.

Entendemos então, que todo vínculo amoroso tem interferência das relações primárias e do contexto familiar, de um padrão vincular que o indivíduo desenvolve a partir de sua inter e intrasubjetividade, causando dependência, na relação com outro. Desejamos sempre um amor ideal, mas o processo de maturidade exige uma adequação das fantasias à realidade.

O homem vive intensamente a busca da conexão total, aquele sentimento de integração que temos no útero. A procura desse estágio sublime pode ser um ato de saúde ou doença, e que a temos fragmentadamente e inconscientemente através do sexo, da religião, das drogas, da dependência afetiva. O fato é que queremos incansavelmente viver as fantasias de uma infância sem fim. Trata-se de uma recusa neurótica ao crescimento. Ao buscarmos gratificar nosso desejo de união total, que é um desejo que todos têm, eles tendem a ser vividos de forma passageira, gerando assim experiências intensas, mas superficiais que aprofundam e não ameaçam nosso eu.

Estreitar laços afetivos equivale acender um sinal de alerta que tem uma mensagem subliminar de sofrimento porque vinculação implica em gratificações e perdas. A dependência emocional tira do sujeito a possibilidade de ser ele mesmo, sem dúvida uma relação que implique o aniquilamento do eu pode gerar ansiedade de aniquilamento.

Entregar-nos de forma desmedida por amor ou qualquer outra forma de paixão pode nos parecer uma perda e não uma vantagem. Como é possível que sejamos tão passivos? Tão sem controle? Como fazer para nos encontrar novamente? Ao ser consumido por essas ansiedades o sujeito pode erguer muros intransponíveis e não fronteiras, isolando-se de qualquer experiência de entrega emocional verdadeira. Sim, porque o fato de uma pessoa viver uma relação amorosa simbiótica não implica que houve entrega emocional saudável, o que se configura nesse tipo de relação se aproxima da patologia. É o que Martins (2009) chama de relação fusional, para a autora em consonância com vários teóricos, a relação fusional servirá como base na construção de nossa dinâmica emocional inconsciente, na busca do nosso objeto de amor e desejo.

Há pessoas que fusionam em excesso com o companheiro e vivem uma dependência extrema, porque provavelmente viveram uma separação ou uma relação muito curta com a mãe durante esse momento inicial. Vivem nos relacionamentos atuais, um deslocamento de afetos maternos com todas as consequências a que isso leva, tanto no tempo da relação como nas separações, que tendem a ser drásticas e avassaladoras, levando à violência, à depressão e à conexão com o medo de perder sua própria sensação de ser alguém no mundo, separado do outro (MARTINS, 2009, p.278).

Riso (2011) já dizia que depender de uma pessoa que se ama é uma forma de se enterrar na vida, ofertamos deliberadamente nosso amor-próprio a alguém. Quando a dependência está presente, um ato de carinho, na verdade, vem embutida a expectativa de retribuição eterna, ideia de que a pessoa está sempre em falta e a necessidade de querer sempre mais, pois por mais que se receba, sempre parece ser insuficiente.

Quando uma criança cresce, sentindo que a manipulação é necessária para obter o que quer, cria-se uma situação lamentável. Quando adulto, pode se tornar envolvido numa teia intrincada de ameaças veladas e poses de desamparo. O mais triste é que sempre nos sentimos desolados no íntimo. Quando conseguimos alguma coisa de maneira indireta, essas vitórias são vazias, e não aumentam nossa confiança e amor próprio.

Padrões de comunicação que as crianças aprendem no início do desenvolvimento são maravilhosamente úteis e apropriados as situações correntes da vida. Mas, de um modo geral, surgem problemas quando soluções antigas são aplicadas a situações novas. O que era apropriado com um pai pode ser destrutivo com um namorado adulto.

É fundamental reconhecer que o gatilho latente no comportamento de jogo é o medo de não conseguir o que se precisa. Todos merecem ter suas necessidades básicas atendidas. O problema não está nas necessidades propriamente ditas, mas sim nos meios apropriados de satisfazê-las. É tolice acreditar que o jogo é um meio viável de alcançar esse objetivo. Não é, serve apenas para alienar e afugentar as pessoas.

Um dos percussores da teoria do apego, John Bowlby, desenvolve ideias centrais para compreender como os seres humanos interagem e por que algumas crianças crescem felizes e autoconfiantes, enquanto outras crescem ansiosas e deprimidas e outras, ainda, emocionalmente frias e antissociais.

O autor define o comportamento de vinculação como um conjunto integrado de sistemas comportamentais, que visa à obtenção de segurança pessoal e tem suas origens na infância (BOWLBY apud RODRIGUES e CHALHUB, 2010). Foi realizado um estudo que procurou investigar o efeito nocivo que acompanha a separação de crianças pequenas das suas mães após terem formado vínculo emocional forte, a criança teria maior dificuldade com a separação e esse poderia ser um dos fatores eliciador de problemas amorosos no futuro. Com o tempo, expandimos os nossos afetos a outras pessoas afrouxando um pouco o laço simbiótico. Assim, naturalmente dá-se a passagem do papel antes ocupado pelos pais para manifestar-se em um amigo e, quando surge um par romântico, este sistema de apego encontra seu novo porto de ancoragem, sempre buscando preencher uma lacuna no seu interior.

Rodrigues e Chalhub (2010) falam que em virtude das interações que a pessoa vivencia durante a infância há uma grande influência para ela esperar ou não uma base pessoal segura, bem como a condição para estabelecer e manter laços afetivos gratificantes. Eles falam ainda que sejam quais forem essas interações iniciais (seguro, inseguro-ansioso, inseguro-ambivalente) as que primeiro se estabelecem são as que persistem durante sua vida.

Os indivíduos seguros apresentam interações mais seguras por não terem encontrado grandes dificuldades de relacionamento em sua vida passada e dessa forma ficarão mais naturais e confortáveis no relacionamento com terceiros.

Os indivíduos inseguros se sentirão mais a vontade em tarefas que o isolam do contato com terceiros. Sua segurança maior está em trabalhos que envolvam uma relação mais direta com o objeto do que com as pessoas.

Os indivíduos ambivalentes que seriam os que mais se enquadram em nosso objeto de estudo, por sempre terem vivido em uma montanha-russa emocional, acabam dirigindo seus afetos utilizando-se das mesmas diferentes estratégias de manipulação usadas por seus cuidadores a outras pessoas, mantendo seus padrões de ligação anteriores e autoestima em níveis mais baixos, propiciando dessa forma uma probabilidade elevada à dependência afetiva.

Uma base de ligação insegura-ansiosa seria revelada pela exposição de uma ou mais agentes estressores: ausência de cuidados e/ou rejeição; descontinuidade da parentalidade (períodos de internação em hospital ou instituição); ameaças persistentes por parte dos pais de não amar, como meio de controle; ameaça de abandono, morte ou suicídio e indução de culpa à criança. Qualquer dessas experiências pode levar uma criança, um adolescente ou um adulto a viver em constante ansiedade, com medo de perder sua figura e, por conseguinte, ter um baixo limiar para a manifestação do comportamento de ligação (BOWLBY apud RODRIGUES e CHALHUB, 2010, p.6).

Essa é uma das principais razões pela qual o padrão de relações familiares que uma pessoa experimenta durante a infância se reveste de uma importância tão decisiva para o desenvolvimento da personalidade. A base a partir de onde um adulto opera será sua família de origem, ou então, uma nova base que ele criou para si mesmo, e qualquer indivíduo que não possua tal base é um ser sem raízes e intensamente solitário.

O que deve ser considerado é que há uma grande relação causal entre a vivência de um individuo com seus pais e sua capacidade de estabelecer vínculos afetivos, e que certas variações comuns dessa capacidade que se manifestam em problemas conjugais e em dificuldades com os filhos, podem ser atribuídas a certas variações comuns no modo como os pais desempenharam seus papéis.

Um termo que está intimamente relacionado a dependência é Adicção antes restrito ao campo das dependências químicas. A marca da adicção é a busca obrigatória pelo objeto, qualquer objeto, que designará nessa busca a repetição dos atos susceptíveis de provocar prazer, porém marcados pela dependência a um objeto material ou a uma situação de busca e consumo com avidez (PEDINIELLE; ROUAN; BERTAGNE apud POSTIGO, 2010).

Essa avidez, esse caráter compulsivo, aparece de forma violenta na adicção: trata-se de uma relação ao qual existe a escravidão de um sujeito a um objeto, que possui um caráter “imperativo”, obrigatório, que domina a relação e compele o sujeito a buscar incessantemente o mesmo objeto. Esse caráter compulsivo determina a dependência. O próprio termo adicção deriva do grego adicctu estando associado à escravidão e servidão, junto com Pathos que remete a paixão e passividade caracterizando etimologicamente o termo adicção em sua ideia original, que é o individuo acometido de forte paixão passiva a um objeto, tendendo a servidão a ele. Na compreensão da paixão, o apaixonado viveria a necessidade de fazer perdurar uma relação antiquada de fusão e submissão ligada as figuras parentais tidas como onipotentes, em que o objeto de paixão sairia da ordem do desejo e da livre escolha para colocar-se na ordem da necessidade. Postigo (2010) afirma que o sujeito busca, no objeto da paixão amorosa uma forma de cura para as suas fragilidades egóicas, na tentativa de negar o seu desamparo representado o objeto da paixão é tomado como insubstituível. Na radicalidade da dependência ao objeto, o sujeito fica numa situação de servidão.

De acordo com a perspectiva psicanalítica de Freud encontramos na teoria das pulsões entendimento de como a adicção se forma, através da compreensão de um funcionamento paradoxal no mecanismo de compulsão à repetição, acompanhamos como a adicção é uma resposta, uma tentativa de dominação de um apassivamento ante a pulsão, que é uma maneira de responder, ainda que precária e elementar ao traumático advindo dos primórdios da constituição da subjetividade (POSTIGO, 2010, p. 63)

Para o dependente seja qual for seu objeto ele tem a função de prazer para atenuar estados afetivos intoleráveis e, como tal, é vivido, pelo menos no primeiro momento como um objeto bom.

O paradoxo apresentado pelo objeto adictivo é o seguinte: apesar de seu potencial as vezes letal, está sempre investido como objeto bom por esta ou por aquela parte da mente. Qualquer que seja este objeto tem sempre o efeito de tornar a vitima da adicção capaz de reduzir rapidamente, embora de forma fugaz, seu conflito mental e sua dor psíquica (MCDOUGALL apud POSTIGO, 2010, p. 102).

Dessa forma, mesmo reconhecendo o caráter nefasto que pode provocar a dependência a alguém, o sujeito sente o prazer de mantê-lo perto, pois de alguma maneira em sua psique ele está compensando ou substituindo um buraco que tende a se tornar maior se abandoná-lo. Como já abordamos anteriormente, esses buracos emocionais tem relação com a internalização materna, os objetos de adicção teriam como função preencher a posto maternante que teria falhado, ou melhor, preencher os sujeitos adictos que teriam fracassado em sua tentativa de introjetar a função materna. Através da incapacidade de internalização do sujeito na relação materna nasce “objeto transitório” é um objeto do qual o sujeito não consegue se separar e com qual vive uma dependência, ou melhor, a própria mãe vive um estado de dependência que promove a dependência na criança. O objeto adictivo, ou seja, a pessoa pela qual é dirigida a paixão seria então um objeto transitório, uma vez que resolveria momentaneamente a tensão psíquica através de solução somática. O objeto da adicção é transitório, pois se faz necessário substituí-lo constante e compulsivamente.

No amor não é tarefa fácil estabelecer o limiar do que é normal e do que é patológico. Muitas vezes o sujeito que está envolvido na relação não tem discernimento para distinguir o quanto faz mal compartilhar uma vida asfixiando e sendo asfixiado por um amor delirante e traz em si a ilusão que agindo de forma coercitiva irá manter o objeto amado ao seu lado, preenchendo uma lacuna que na verdade jamais será preenchida, pois viver também é falta, é vazio, e é incompletude. Esse amor patológico pode ser caracterizado pelo comportamento de prestar cuidados e atenção ao parceiro, de maneira repetitiva e desprovida de controle em um relacionamento amoroso (SHOFIA apud RODRIGUES e CHALHUB, 2009). Podemos acrescentar que ao nos envolvermos com alguém qualquer sentimento associado à posse, controle excessivo, atitudes de segregação e/ou sensações que gerem sofrimento para ambas as partes pode ser considerado como amor patológico e/ou dependente.

Historicamente o amor sempre foi permeado de romantismo e concepções fantasiosas, onde é posto no outro expectativas irreais que não possuem a menor chance de serem cumpridas. Em geral, ainda que existam diversas concepções acerca do amor, a maioria é contaminada por uma fundamentação irreal tal qual um devaneio. Culturalmente aprendemos a ver o amor em lentes cor de rosa, a menina aprende em contos de fada que seu príncipe chega a cavalo para salvá-la da bruxa má e o menino aprende que a mulher completa é aquela que dá conta da família em tempo integral e ainda deve corresponder as expectativas financeiras e sexuais que a modernidade impõem. Todos esses sonhos postos no caldeirão acabam falindo relacionamentos e gerando sofrimento porque acabamos perpetuando um pensamento e achamos que ao trocarmos de parceiro como mágica nossos problemas serão resolvidos. Ilusões românticas e idealizações com altas expectativas no que diz respeito ao outro se mesclam para forjá-lo nos pensamentos das pessoas. O outro assume lugar de deus, e são atribuídos a ele aspectos dignos de veneração.

O amor romântico fala de um encontro amoroso profundo até a raiz da alma, incompatível com a realidade da vida conjugal comum. Na prática, acaba provocando frustração nas pessoas que querem encontrar êxito numa formula amorosa tão ideal quanto impossível.

O ser humano se relaciona amorosamente mediante as estruturas pessoais de cada um, a identidade pessoal guia as relações e seus desdobramentos. Porém, não podemos compreender a identidade como fixo e sim como um construto que é historicamente elaborado. A identidade é continuamente formada e transformada em relação com a maneira como os outros nos percebem.

Na dialética entre nosso eu ideal e a identidade social. Não podemos nem devemos esquecer-nos das relações que envolvem conflito de gêneros, uma vez que, a forma de amar é ligeiramente diferente do homem e da mulher tantos pelas influencias familiares quanto pelas questões culturais. Muito embora a dependência afetiva seja inerente à questão do sexo do sujeito.

Para Rios (2008) numa visão mais global, o amor romantizado surge como fenômeno social, junto ao individualismo, no conjunto de estratégias de organização da sociedade capitalista. No espaço individual da produção da subjetividade, os processos do amor tornam-se fundamentais para a formação e manutenção da identidade (COSTA apud RIOS, 2008). Com isso a autora quer dizer que para a ideia de construir uma vida em comum o sujeito deve ter um espaço para construção de um eu individual e só assim abrir espaço para compartilhar no coletivo, e assim através de um espelhamento se reconhecer no outro.

Amar dá trabalho. E o ganho pode parecer pouco, especialmente quando se vive em mundo como o nosso, que nos cobra a busca por um fictício estado prazeroso ininterrupto. O ganho que não está previsto nessa conta que soma êxtases, é aquele que não se percebe imediato: as transformações do eu  na experiência da intersubjetividade. O eu não é um produto pronto e acabado na saída da primeira infância. O eu passa a vida se fazendo e se refazendo nas relações com o mundo. A falta de relações intersubjetivas autênticas impossibilita experiências da vida que são imprescindíveis para felicidade do eu. Ou seja, não nos bastamos, mesmo quando acreditamos que é melhor não gostar de ninguém para evitar sofrimento. Evitamos as dores de amores pelo outro e afundamos nas dores do vazio de si mesmo.

O amor atrai pela promessa do bem, mas cutuca uma ferida narcísica: expõe nossa carência, nossa falta em sermos completos como gostaríamos. Quando amamos, sofremos porque vemos no outro tudo que nos falta e queremos. Sofremos porque temos medo que o outro goste menos de nós e nos abandone, levando consigo uma parte nossa que nos desabita. Contudo, apesar de todas intercorrências que são inerentes a quem padece da dependência afetiva, não adianta impor nossa forma de amar, não adianta a doação incondicional ao objeto amado se dentro de nós não existir amor a si próprio. Aquele encontro conosco que (re)significa nossa experiência e nos coloca no lugar de sujeito nos tirando da posição de apenas desejante.

De acordo com Pinheiro [s/d] tudo aquilo que é investido pelo sujeito com idealização é expressão do seu desejo e promotor de ilusões. Em geral, a noção de felicidade está atrelada a ilusões que se mantêm através de registros de memória antigos que foram fortemente idealizados. Não há prova de realidade que possa competir com uma forte idealização de um objeto perdido, ou seja, com uma imagem e uma ideia que foi bastante investida pelo sujeito que representa algo vivido com muita intensidade.

Muitas vezes, o objeto de amor de um sujeito confere a ele a sensação de uma completude narcísica, uma vez que o outro o idealiza, o protege e ampara, legitimando sua identidade social. Por outro lado, esse objeto de amor pode fragmentar a identidade do amante, levando-o a se sentir desamparado quando não o aceita e lhe agride. Freud já dizia que um dos motivos de infelicidade dos casais estava no fato de se misturarem tanto que não sabiam mais quem eram. Não conseguem se diferenciar e acreditam que isso é um fato, e dessa forma são geradas expectativas que em algum momento não poderão ser atendidas.

A literatura poética e a música muito versaram acerca das diversas formas de amar, contudo ninguém foi mais brilhante ao falar das expectativas e a busca pelo amor completo como Chico Buarque em sua canção intitulada “Terezinha” que diz:

O primeiro me chegou como quem vem do florista 
Trouxe um bicho de pelúcia, trouxe um broche de ametista
 
Me contou suas viagens e a vantagens que ele tinha
 
Me mostrou o seu relógio, me chamava de rainha
 
Me encontrou tão desarmada que tocou meu coração
 
Mas não me negava nada, e, assustada, eu disse não
 
O segundo me chegou como quem chega do bar
 
Trouxe um litro de aguardente tão amarga de tragar
 
Indagou o meu passado e cheirou minha comida
 
Vasculhou minha gaveta me chamava de perdida
 
Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração
 
Mas não me entregava nada, e, assustada eu disse não
 
O terceiro me chegou como quem chega do nada
 
Ele não me trouxe nada também nada perguntou
 
Mal sei como ele se chama mas entendo o que ele quer
 
Se deitou na minha cama e me chama de mulher
 
Foi chegando sorrateiro e antes que eu dissesse não
 
Se instalou como posseiro dentro do meu coração.

Nessa canção Chico fala em seu primeiro verso das expectativas infantis e idealizadas do primeiro amor onde projetamos todo nosso ideal no objeto amado, mas a ausência de frustração também é fonte de insatisfação de desinvestimento. No segundo verso, fala da entrega total e unilateral de uma das partes, da invasão e desrespeito que a relação representa e de toda dor e aniquilamento que trouxe. No terceiro verso, já há indicação de maturidade emocional, a relação é vista não mais para preenchimento do vazio e não tem as expectativas de resolução de conflitos internos. A esse tipo de relacionamento que devemos caminhar, mas a busca primeira deve ser por nós mesmos. Quando soubermos ser felizes sozinhos, a entrada de amor em nossa vida será para nos complementar e não com intuito de necessidade.

É o que Winnicott (1958) chama de capacidade de estar só, ele fala que quando desenvolvemos a capacidade de estar só na presença de alguém atingimos verdadeiramente a maturidade emocional necessária para nos desligar das emoções primárias que comandam nossa vida. Ele diz:

Considero, contudo, que “estar só” é uma decorrência do “eu sou”, dependente da percepção da criança da existência continua de uma mãe disponível cuja consistência torna possível para criança estar só e ter prazer em estar só, por períodos limitados. Nesse sentido estou tentando justificar o paradoxo que a capacidade de ficar só se baseia na experiência de estar só na presença de alguém, e que sem uma suficiência dessa experiência a capacidade de ficar só pode não se desenvolver (WINNICOTT, 1958, p. 35).

Considerações Finais

Parafraseando Riso (2010) embora todo amor tenha algum nível de dependência, amar sem dependência se revela uma arte emocional, uma vez que os mecanismos que envolvem uma relação afetiva plena nem sempre são bem vistas por nossa sociedade. Talvez a sociedade reforce um amor dependente porque ainda não é bem visto, independente do gênero que alguém possa ser, completo sem ter uma companhia para vida inteira. A mídia estimula à dependência afetiva com histórias novelescas de casais que só são felizes após passarem por intenso sofrimento, então, as pessoas adquirem a crença que precisam se submeter a alguns relacionamentos conflitantes, pois ao final de tudo viverão o tão sonhado “felizes para sempre”.

Aprendemos que o amar incondicionalmente é antes um princípio bíblico que deve ser seguido, entretanto Jesus falava que devemos amar o próximo como a nós mesmos, e nesse ensinamento que achamos subsídios para nos embasar. Ora, se não nos amarmos primeiro como iremos adquirir a capacidade de amar o outro? Sendo fato que amamos no outro aquilo que nos falta, esse mesmo outro funciona como espelho de nós mesmos, que em alguns momentos reflete sensações agradáveis e noutros mostra exatamente aquilo que queremos esconder. Quando se trabalha o amor próprio e o autoconhecimento fica mais fácil reconhecer o gatilho que destrói nossa autoestima e nos leva em direção a relacionamentos destrutivos. Enquanto não tivermos a compreensão da necessidade de um trabalho pessoal profundo, viveremos reféns de nossos próprios medos.

O apego gera dependência que gera sofrimento. A liberdade em assumir o comando de nossa própria vida não é tarefa fácil, implica em abdicar uma série de amarras e essas amarras muitas vezes aparecem com ganhos secundários. É fato, que ninguém é feliz sozinho.

Reconhecemos-nos no outro desde a fase embrionária, mas amar sem apegos irracionais é amar sem medos. É assumir o direito de explorar intensamente o mundo, de tomar conta de si mesmo e de buscar um sentido na vida.

Evidentemente que nenhuma forma de vício, compulsão ou dependência exagerada é saudável do ponto de vista de nossa sanidade mental. Passamos nossas vidas em busca de nossa metade da laranja, mas o grande balde de água fria que recebemos dá conta que não podemos ser metade de nada, antes precisamos ser inteiros para nós mesmos.

Esperamos ter contribuído para o entendimento dos aspectos negativos que envolvem a dependência. Não temos a pretensão de abarcar toda temática nem formar juízo de valor a respeito, pois como já dissemos anteriormente, em muitos casos o dependente afetivo é vitima de uma relação causal enredado numa teia familiar e social ao qual não aprendeu outra forma de amar.

Lembramos, ainda, que nenhuma teorização é capaz de dar conta de toda complexidade humana, cabendo nesse caso mais estudos nessa área que deem alternativas para o individuo que ama com dependência de forma imatura podendo causar dificuldade de vinculação ou prejuízo emocional a si e ao outro.

Sobre os Autores:

Christiane Souza de Andrade Silva – Psicóloga, pós graduada em gestão social e terapia familiar pelo LIBERTAS.

 

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