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Estresse, Ansiedade e Depressão Associados à Cefaleia Tensional Crônica

 A dor de cabeça é um achado frequente na clínica medica e psicológica e possui os mais diversos reflexos no cotidiano do paciente. A cefaleia tensional é um dos tipos mais frequentes de dor de cabeça. Nesta revisão são discutidas as relações das cefaleias classificadas como primárias com a depressão, a ansiedade e o estresse. Com vista a grande variedade de fatores desencadeantes e agravantes dos quadros de cefaleia, se faz necessária uma relação multidisciplinar no tratamento do paciente.

 

  1. Introdução

As dores de cabeça estão entre os problemas de saúde mais comuns que podem prejudicar a qualidade de vida das pessoas. A cefaleia tensional crônica é um tipo de cefaleia primária que se apresenta com dores de cabeça moderadas e frequentes, que podem ser agravadas ou precipitadas por transtornos mentais, como nos casos de pacientes que passam por períodos de estresse ou depressão. O objetivo desse artigo é diferenciar os tipos de cefaleias e relacionar a cefaleia tensional crônica com sua psicopatologia, mostrando relação entre a mente e o corpo.

Para confecção do presente trabalho foram feitas revisões literárias buscando artigos em sítios como Scielo, PubMed e Google Acadêmico. Foram pesquisadas as palavras-chaves cefaleia tensional, psicopatologia, cefaleia, estresse, relação. Ao todo foram utilizadas pelos autores 10 referências, dentre artigos de revisão, estudos clínicos e relatos de caso.

  1. Discussão

A dor de cabeça é um sintoma muito frequente na prática médica e pode estar relacionada com um distúrbio físico, emocional ou psicológico. As suas determinantes etiológicas podem se dever a patologias estruturais nervosas ou extra-nervosas (processos expansivos intracranianos, meningoencefalites, sinusopatias), sistêmicas (estados infecciosos, lúpus eritematoso sistêmico) ou a quadros disfuncionais (enxaquecas, cefaleias tipo tensional) (SANVITO; MONZILLO, 1997). A queixa cefaleia constituiu um desafio para o médico, em virtude da diversidade dos tipos de cefaleia encontrados e, portanto a abordagem do paciente deve ser multidisciplinar.

A cefaleia é classificada, segundo sua etiologia, em primária e secundária. As cefaleias secundárias são as provocadas por doenças demonstráveis por exames clínicos ou laboratoriais. Podem ser causadas por infecções virais ou bacterianas, traumatismos ou ocorrências vasculares. As cefaleias primárias são as de mais difícil diagnóstico e não são demonstradas por exames laboratoriais (SPECIALI, 1997). Os exemplos principais são a enxaqueca ou cefaleia migrânea e a cefaleia do tipo tensional.

A enxaqueca é mais frequente no sexo feminino e é caracterizada por crises recorrentes de dores de cabeça constituídas por até quadro fases. Na primeira o paciente fica mais irritado, com raciocínio lento e desânimo. A segunda fase está associada com sintomas visuais e dificuldade na fala. Na terceira fase a cefaleia é de forte intensidade e pulsante. A quarta fase é a fase da exaustão, com sensação de cansaço e fraqueza (MONZILLO, 1997). A enxaqueca está relacionada com problemas emocionais, como ansiedade e depressão, excesso ou privação do sono, in- gestão de determinados alimentos, jejum prolongado e ingestão de bebidas alcoólicas.

A cefaleia do tipo tensional é o tipo mais comum de dor de cabeça. É caracterizada por uma dor de leve a moderada intensidade e pode ser classificada em episódica e crônica. Na episódica o paciente apresenta eventual- mente dor de caráter contínuo, não pulsátil, nas regiões frontal, temporal occipital e parietal. A crônica é caracterizada pelo relato do paciente apresentando dor de cabeça no mínimo durante quinze dias por mês e por um período de três a seis meses (SANVITO; MONZILLO, 1997). A cefaleia tensional tem como fatores de risco o gênero (cerca de 88% são mulheres) e a idade (40 anos é considerado a idade de maior incidência dessa cefaleia). Ela é causada pela contração involuntária e crônica de músculos na parte de trás do pescoço, cujo estimulo é a tensão causada principalmente por distúrbios psicológicos como estresse, ansiedade e depressão. Outras causas relacionadas são o repouso insuficiente, fome e excesso de exercícios físicos.

  1. Estresse, Ansiedade e Depressão

O estresse emocional além de ser um dos principais fatores desencadeantes da enxaqueca, também está relacionado com a duração e piora das crises (CORREIA; LINHARES, 2014). Foi relatado ainda que o estresse e ou- tras condições como depressão e alterações hormonais poderiam diminuir o limiar de de- sencadeamento de uma crise de dor (MORAES; VALENÇA et al., 2003). Confirma esses fatos a observação de que 59% das mulheres analisadas em estudo demonstravam presença de estresse. Dessas, 86% apresentaram estresse em fase de resistência (que corresponde a uma fase na qual o organismo está agindo para impedir o desgaste total de energia e tentando restabelecer a homeostase), sendo que 59% apresentaram sintomatologia psicológica do estresse (CORREIA; LINHARES,  2014).

Em outro estudo foi observado que 66,67% das participantes com cefaleia do tipo tensional apresentavam stress. A mesma pesquisa mostrou que entre os fatores desencadeadores de dor de cabeça, o estresse foi o mais citado nas mulheres com cefaleia  tensional: 84,62% das pacientes (MASCELLA et al., 2014).

Em pesquisa feita por Bernardi et al. (2008) em uma população universitária, não foi encontrada uma relação direta entre estresse e a cefaleia tensional no gênero masculino, porém foi demonstrada uma relação direta entre estresse e cefaleia tensional no gênero feminino. Tal fato pode estar relacionado às flutuações cíclicas de estrogênio e progesterona que aumentam as respostas de estresse segundo os autores.

É sabido desde Jordy (1995) que a ansiedade crônica compõe um permanente componente favorecedor patogênico que é denominado nível de ansiedade. Desta forma, tanto maior será a ansiedade em dada situação diante de um agente estressor, quanto maior for o nível permanente crônico de ansiedade. Ainda em relação a sintomas de ansiedade, 60% das pacientes participantes com cefaleia tensional apresentaram níveis pelo menos mínimos de ansiedade (MASCELLA et al. 2014).

A literatura considera também o sintoma corporal da falésia como equivalente depressivo. Nesse contexto, é constatado que a dor de cabeça é apontada como uma das queixas mais comuns de pacientes depressivos. É também sugerido que a negação da depressão principalmente nas mulheres é causa comum de cefaleia. No estudo, os homens apresentam depressão e angústia manifesta em maior incidência do que as mulheres. Por sua vez, as mulheres apresentaram maior incidência de conversão sintomática (PETERSEN; NUNES, 2002).

A relação entre dor e depressão nos faz lembrar de Freud, que sugeria a relação entre dor física e psíquica. Segundo suas análises a correlação entre as duas esferas de dor existe no que concerne à retração da libido.

A depressão desempenha papel importante na percepção da dor, na medida em que exacerba as sensações desconfortáveis ou, ainda, é a condição primária desencadeante da dor. Em análise foi verificada associação entre cefaleia e depressão manifesta: 50% dos pacientes apresentaram depressão manifesta, enquanto que 67% depressão manifesta ou subjacente. Na amostra ainda foram identificados pacientes neuróticos, nos quais a cefaleia foi atribuída à existência de conflitos neuróticos, como a dificuldade de lidar com pulsões agressivas. Os mecanismos predominantes de escape desses conflitos foram o recalcamento e a negação. Assim, por mais sólido que seja o funcionamento defensivo neurótico, ninguém pode estar ao abrigo de movimentos de desorganização e aparição de perturbação somática de qualquer ordem (PETERSEN; NUNES, 2002).

Segundo estudo feito por Matta e Filho (2003), entre portadores de cefaleia do tipo tensional episódica, ansiedade foi encontrada em 60% dos pacientes. Sintomas depressivos por sua vez foram encontrados em 32% dos pacientes. Em pacientes com cefaleia do tipo tensional com apresentação crônica, ansiedade foi detectada em 44% e sintomas depressivos foram observados em 40% da amostra.

  1. Considerações Sobre o Tratamento

Atualmente, o que se observa é que o uso de técnicas, farmacológicas ou não, para alívio ou atenuação dos sintomas físicos da cefaleia de tensão parece apenas contribuir temporariamente para que o paciente retorne às suas atividades normais. Mesmo estando em condições de reconhecer o papel fundamental das ciências sociais no campo da saúde, inserindo-se uma nova visão de sujeito e ampliando as perspectivas intervencionistas no campo da prevenção, permanecem as disparidades entre o avanço tecnológico e as práticas de pesquisa e atuação profissional.

Os serviços de saúde colocados à disposição dos pacientes continuam centrados em classificações sintomáticas, rotinas institucionais rígidas e burocráticas e atendimentos distantes do ideal multidisciplinar. O que deve ser percebido e aplicado amplamente é que não se trata simplesmente de acolher a queixa e encaminhar o paciente para extensas baterias de exames e tentativas recorrentes de prescrever um medicamento mais eficiente. No lugar disso, permitir que, ao relatar sua experiência com a dor, o indivíduo seja capaz de ampliar seu conhecimento sobre as relações funcionais que assume com o problema, construindo uma relação de autonomia e corresponsabilidade sobre a origem e tratamento de sua patologia (FLORES; JUNIOR, 2004).

  1. Conclusão

Ao final da presente revisão literária acerca da psicopatogênese das cefaleias, conclui-se que fatores psicológicos e emocionais como estresse, depressão e níveis aumentados de ansiedade contribuem efetivamente para o aparecimento de quadros de cefaleia do tipo tensional e todas suas consequências prejudiciais ao cotidiano dos pacientes. Fica claro também que a abordagem terapêutica destinada a esses pacientes, deve possuir caráter multidisciplinar, visto a grande gama de fatores indutores e agravantes das cefaleias.

 

Autores:  Pietro Pellizzaro Lima  Thais de Figueired  Evaristo Nunes Magalhães |

 

Fonte: https://psicologado.com/atuacao/psicologia-da-saude/psicopatologia-associada-a-cefaleia-tensional-cronica

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